Desejo desentupir essa torrente que não cala. Alagar as margens que já vão lá pela casa do caralho, um Amazonas com Nilo e Ganges, misturadinho, gigantesco. Essa torrente interminável, essa abominável torrente que flui, ininterruptamente. Que cansa e faz o instante parecer uma maratona. Um único momento em que tua cabeça consiga alinhavar todas as possibilidades palpáveis e impalpáveis sobre as quais você se debruça, na eterna ingenuidade de achar que você pode resolver algo, alguma coisa, um incômodo, a inquietação que te acomete, num instante redentor de esperança de quem não espera, de quem, assim como disse o Miller, aquele fodão, precisa desesperadamente fugir pra uma aurora perpétua com velocidade infalível, que não deixe espaço pra pesar, remorso ou arrependimento.
Apenas um desejo. Desejo inclusive de estar começando algo que há de terminar, e estando terminado, no instante, há de ser gracioso e violento, trazendo pra nós maior moral, maior ibope. Algo que esclareça. Algo que não pertença aos senhores mercadológicos. Ora vejam vocês: eu mesmo, farnango agudo e aguçado pelos recalques mais escandalosos e profundos, enfiado numa épica e improvável batalha coletiva da poesia contra o mercado, tomei um baita esporro de um desses senhores, outro dia mesmo. É claro que não esqueço. Nunca. É mais um trauma pra coleção. Escaldado nas areias do inferno, forjado na sentença terminal da frustração. Seminal, diga-se de passagem. O que eu faço? Penso eu – no meio do furdúncio: foda-se. Sigo adiante mediante desculpa de cantinho de boca. Não quero me aprofundar num jogo que não quero jogar, mais fácil respeitar as regras deles, mas…
Mas, impelido, dou pra escrever essa merda hermética donde concluo o talvez melhor caminho, único ao que me apeguei: um simples “OK, você tem razão” pro senhor do mercado. Ele merece minhas desculpas. As mais cínicas, diga-se de passagem. Porque pra mim, entre a vilania inescrupulosa de estar besuntado em razões mercadológicas e a minha ternura de inocente idiota inconseqüente, eu fecho comigo mesmo, porque não sou outro. Desabafo aqui porque levar desaforo pra casa só trás munição pro meu massacre. Eu vou exterminar esses filhos da puta todos com a minha indiferença (se não me afogar em arrogância, sinceramente, essa armadilha da vaidade…). Meu napalm pra esterilizar esse campo de coerência ingrata.
É conta no banco, juros intermináveis que a gente jura que vai pagar, doenças incríveis que nos acometem e a falta de tempo pra reagir. Um instante redentor há de salvar a todos nós, através da esperança contida no desespero. Tô afiando minhas obsessões não é de hoje; ela já é uma katana de samurai, letal, daqui há pouco canhão, me dá só mais meia horinha. Quero ver a cara do sujeito quando for atingido, num sonho meu, por uma bala na cara, um tremendo balaço nos cornos. Quero ver seu sorriso sem dentes, a baba com sangue escorrendo pelo queixo amassado. Quero VER. Porque ri melhor quem ri. E neguinho tem se locupletado em risadas e dry martinis por aí. O capital financeiro tá aplicado nessas risadinhas. Risada de barriga cheia e indiferença. Risada de quem é dono do meio.
Quero empilhar as carcaças desses filhos da puta todos, um em cima do outro. Nada contra os camponeses cambojanos, eu vos amo, mas minha sede é de Pol Pot. É de Tom Zé, também, veja você. Não tenho mais medo, meu instante é meu, meu sabor, meu momento. Não vou negar. Não vou ficar calado, não dá. Se eu penso muito, não vejo nenhuma boa razão pra não vomitar. É inerente. Meu rancor de pelúcia. Se liga, senhor gerente, tudo é vai e volta.

Fui a uma festa VIP inovadora. Era realizada num ambiente controlado, com algum tipo de tecnologia de última geração, quando você entrava isso ficava patente. Eu não sou muito chegado a esses eventos, muito menos a festa VIP, fui porque ganhei o convite super VIP de uma pessoa muito querida, e confesso que fiquei curioso. Fui pra ser VIP, ou melhor, super VIP, distinção que pra mim soava meio redundante, mas vá lá. Num lugar secreto, especial, exclusivo, essas babaquices todas. Tudo divulgado apenas algumas horas antes, coisa do creme do creme, da nata. Chegando lá, reparei que não havia curralzinho, com as prometidas subcastas, essas coisas. Fiquei meio cabreiro, modernoso demais o lance, todo mundo então era super VIP…


