Toda vez que se via, desmerecedor do merecimento. Encontrava nos seus próprios lapsos pedaços de desejos incompreendidos ou esquecidos de tão molinhos que ficavam antes de sair pro mundo. Toda hora. Todo desejo. Incandescente. Não tinha mesmo o hábito. Se tivesse, teria saído, exatamente nesse momento. Porque queria. Não tinha um ímã atado a bunda nem nada que o grudasse ou colasse ou puxasse pra baixo, mas ainda assim não conseguia. Tinha pernas muito curtas, mal lembrava da pedra de pedra que fora outro dia. Não queria mais lembrar. Construíra até um jeitinho pra si, pra sobreviver. Juntava tudo que trazia reações de amolecimento, de caminho, de cantinho. Fazia isso por experiência, pra sobrevivência. Tinha esse hábito. E assim encontrava balsas e portos seguros que deixavam-no boiar um pouco mais pelo mar seco da sua represa. Armadilha.
Os laços já tinham afrouxado todos. Escondera as poções, os antídotos, os unguentos numa mesma salinha. Partículas subatômicas e ares docinhos costurados numa colcha de comiseração. Vomitava nas escadas, noite após noite, como num altar. Ah, gracinha, dominância retrátil multiplicadora da fome e do desespero. Paulo era seu inimigo. Tinha asas nos pés e metralhadoras semi-automáticas debaixo da pele. Criara essa limitações protetoras. Defensas. Criara outras tantas coisas inomináveis que preferia manter ocultas. Como mortes e testamentos secretos. Tinha esse pendor. Ninguém deveria. Sua cabeça cuspia o mundo tal qual o via, os olhos pareciam muito espelhos. E sangrava por lá. Menor assim. Transara em todos, como se dizia. Até esgarçar os clichês da esquina, até esfolar a rima dos michês de bunda suja.
Qual não era seu espanto, entre dentes e línguas, desencontro. Toda hora parado. Um interminável engarrafamento emocional da coragem em cujo pedágio eram fuzilados todos aqueles que não traziam dinheiro trocado. Se não facilitar, dança. Melhor se comportar. Se conter. Pra não vazar todo esse medo de inadequação. Funcionava assim como uma estante, reta, quadrada, dura, inerte. Escorria sempre pela bainha das calças, tentando não molhar o assoalho. Nas frestinhas, acontecia uma mistura, poeira com sonho, poeira com desilusão, poeira com tudo o que lhe escorria. Não suportava mais algumas ponderações de seus arredores. Preferiria matar, mais um vez. Havia matado uma menina quando criança. Havia matado um homem quando adulto. Tudo isso antes de nascer. A vida é ordinária. A morte é extraordinária. Pendure de cabeça pra baixo todos os críticos de sua acidez. Morceguinhos avinagrados. Se era corrosivo, não permitia bases. Seu Nilo era menos extenso que o otimismo barato que encontrara certa vez em livros e litros de auto-ajuda, boquinha pestilenta beeeeeem longa, mas a profundida, ahhh!, a profundida, essa poucos viam. A água era turva, chegava a ficar barato quando algum filhote se afogava, quase insuportável de tão barato.
Mas como pode ser contra tudo?
Esfolava o pau. Até doer. Não exatamente de propósito, mas também não seria impossível evitá-lo se estivesse um pouco mais consistente das idéias, por assim dizer. É um merda ser inconsistente nas idéias, ainda mais depois de ver tanta gente com tanta idéia simples prosperar por consistir nelas. Insistir. Se eu não tiver, ninguém mais vai ter. Isso mantinha a cotação do nada muito alta. Um perigo.
Vamos dar com os burros n’água? Chegando lá, unicórnios.



uau. jorro veloz viagem violência segredo alívio torrente argúcia. alquimia estranha e instigante. intensidade líquida. vontade de mais viajar no lombo dessas palavras. ir mais, chegar mais perto. texto que se bebe, que verte e que embebe. obrigada. faz falta você.