Por mais que corresse sempre se atrasava, atributo esse mais ou menos parecido com mais ou menos todo mundo, hoje em dia, como se, ao dizer isso, pudesse libertar dum dogma denominador comum tudo que não fosse ordinário, não fosse claro, ou fosse hermético, por mais que corresse. O que é a pontualidade? Afinal, marcar um ponto ou seguir um ponteiro não atestam nada, pensava, olhando sem parar o lento desenrolar que girava em seu pulso. A rua, vazia, impelia-o a um andar mudo, um entardecer, uma humidificação inebriante dos sentidos, e isso desgarrava-o do tempo, estilhaçava os ponteiros, as portas, os cigarros e a simplicidade que se antevê no sofrimento alheio. Achava no bolso sempre aquela humildade tão necessária aos impulsos criadores, que se afirmavam no vazio, no sentimento mútuo de uma vaidade tola, sempre ela, agarrando-o pelos calcanhares, tentando fazer e ser o caudaloso, o tempestuoso, o fluxo, a chuva e o inconveniente.
E, por mais que isso o fizesse pensar que estava sempre atrasado, não importava o quanto se adiantasse, o pensamento não o libertava da eterna vigília dos ponteiros. Sabia como era fácil e perigosa sua incomensurável capacidade de exprimir o inexprimível, lacrado numa caixa de mudança, posta num container, a mil anos luz do seu destino, não importa qual fosse, mesmo que fosse, inclusive, seu destino final, morar pra sempre num container, como uma célula, estacionado num canto esquecido de um porto desativado, quiçá em ruínas. Vasta vasta vasta cabeleira de idéias, o atordoavam de modo sufocante, uma fuga, tomara que sim, era uma chance de chegar na hora, uma mísera vez que fosse. Pôde passar mais de seis horas parado, ali, na eterna especulação do que seria se fosse, um looping másculo e terrível como a sensatez idiota de um funcionário público, um câncer sufocante que iria aterrá-lo como um lodo escuro, grosso e interminável, e pôde também, no ato, se perguntar por que o infinito cantava tão fácil nessa catatonia de imagens que iam seguindo, e pensou nunca ser o que seria exatamente, se não fosse nada mais que isso, um especulador de sonhos e idéias adestradas pra serem qualquer coisa menos uma resposta, a merda da diáletica de quem é o dono e o cachorro, um sempre querendo passear porque o outro PRECISA disso, e você faz isso pelo outro, nunca por si, sendo dono ou cachorro, não importa.
Era duro pensar na sua imobilidade. Podia ir andando, da praça, pela calçada, atravessar a rua, pé ante pé, adentrar um bar, um café, um boteco, um restô, o que fosse, que ainda sim estaria especulando. Um operador de especulações mentais vazias, tão pertinentes, muito próximas a um enxame de marinbondos agressivos pronto pra picar tudo à sua frente até extinguirem a raça.



abriu as asas. e voou. a coluna interna é o que dá sustentação. o abismo oferece o vazio. e o vento, o ar ou a térmica, o sustentar. pousar, só pra poder decolar. de novo.