Ouvindo música (Monk), me ocorreu o seguinte:
Miles Davis e Chet Baker ficaram longos períodos sem tocar / gravar. O primeiro, por que tava todo arrebentado de heroína, que nem uma salamandra etíope, entre a vida e a morte. Aí ficou uns 6 anos sem gravar, se não me engano. O segundo, Chat, entrou na porrada, se não me engano também (pode ser que tenha sido uma porrada de carro), e perdeu os dentes da frente. Ficou sem conseguir fazer sua enbocadura no trompete. Disseram que seria impossível voltar a soprar. Ele insistiu mais que tudo e conseguiu. Acho que levou uns três anos. Adestrou as gengivas frágeis e mais os lábios delicados pra darem conta do recado.
O Thelonious Monk também ficou um longo período sem gravar. Até morrer. Uns doze anos. Por que? Nenhuma das razões acima. Uma parada de dentro pra fora. O cara era loucão mesmo, cascagrossa. E não era lance de droga; era de natureza. E aí, acho que um belo dia ele cansou, e nunca mais. Por que, quando você vê o cara tocando, você vê que ele trabalhava no limite da loucura. Dá uma olhada.
Neguinho deve dizer que o cara era bi-polar, esquizo, whatever, não importa. O cara era um artista, e a loucura maior, senão a coerência maior, foi que um dia ele perdeu o interesse por aquilo que o movia com o maior dos vigores. Ele largou, abandonou o que saía de si, pelos dedos, pelo corpo todo. Secou. E morreu (senão me engano…) em 1982, sem grande estardalhaço; passara doze anos em silêncio, a máquina sonora de outrora num retumbante silêncio, sem uma suposta razão concreta, como costumamos dizer. Vai saber o que é isso, se não era o desejo dele a coisa mais concreta do mundo…



Duas lendas.
Diz a lenda que o Chet apanhou do traficante.
- Ah, ce nao vai me pagar? Entao vai ficar sem ganhar dinheiro tambem.
E tome chute na boca.
No Miles & Monk at Newport, dizem que antes do concerto, o Miles se picou muito e o Monk ficou dando voltas ao redor do piano, umas 100. Eram os rituais de cada um.
E dizem ser o melhor disco ao vivo de jazz.
Sim, eh bom praca.