Fora sempre meio retraído. Taciturno, introspecto. Também, pudera, filho de um ascensorista de elevador tricolor e de uma costureira paralítica e desdentada… Aos 16 anos começou a trabalhar como boy para complementar a renda familiar. Aos 20 já quebrava um dobrado atrás do computador, 14h por dia. Com o tempo aprendeu até a falar com os colegas de escritório, mas sua vida social e a sexual continuavam nulas. Nulas. Comera, em toda sua vida, umas duas putas de Copa e uma empregadinha que morava no mesmo conjunto habitacional que ele, em Jacacity. Sempre almoçava sozinho. A única pessoa do escritório que o convidava para almoçar era um superior bicha, e ele preferia não. No presente momento, estava curtindo aquela clássica melancolia pós-rangum, num pé sujo do Centro, próximo ao escritório. Preparava-se então para voltar a sua mórbida labuta quando uma loura, não que tivesse o rosto muito bonito, até que dava pro gasto, mas com peitos e bunda simplesmente maravilhosos, portentosa, opulenta, bicos do seio do tamanho da boca dele, uma deusa, uma musa transcendental, intocável, pertencente ao mundo das idéias, algo de essência da mulher, esbarrou nele. E foi aí que tudo aconteceu. Ele começou a sentir tanto tesão, mas tanto tesão, como nunca havia sentido até o presente momento, como ele nem sabia que se podia sentir tesão, que por um breve instante, talvez um pequeno interstício temporal, atreveu-se a sonhar que estava graciosamente acomodado no colo dela, com a cabeça docemente recostada sobre aqueles seios aconchegantes, beijando-os, mamando, e ela, com a mão por dentro de sua calça, pegando em seu pau, tocava uma punheta e dizia “como você é gostoso, esse seu jeitinho retraído, que tesão…”. Mas no instante seguinte ele viu a expressão dela mudar de “opa, desculpa!”, ou ainda, “ai, que susto, foi mal…” para “seu idiota completo, palerma, seu mortal ridículo e inferior, como ousa esbarrar em mim, a inventora da buceta?”, e a partir daí ele foi se sentindo triste como também nunca havia se sentido antes, triste como nunca havia imaginado que se pudesse ficar, triste e oprimido e um peso em seu peito foi crescendo e a dor foi aumentando, e realizou então que estava a anos-luz do último dos homens ou que era quase nada, ou talvez um pouco menos, e achou que o mundo ia acabar ali, com uma grande explosão, tudo culpa dele e de sua pretensa imaginação, de seu ego reprimido que resolvera se libertar logo naquele momento, num ato de extrema arrogância… não poderia ter desejado-a daquela forma, ou melhor, não deveria nem ter olhado pra ela. Ai, meu Deus, que qu’eu faço agora?, e só soube fugir. Sem coragem pra pedir desculpas, abaixou a cabeça e foi embora, de volta ao escritório. A loura, diante de tão estranha reação, tentou chamá-lo, “Hei, fulano, que foi?…” mas ele não teve coragem de olhar para trás, e ela ficou com pena mas pensou “ah, foda-se, é só mais um fudido” e foi pra casa. Quando chegou ao escritório, seus colegas repararam que estava pálido, mas acharam de bem não comentar, o rapaz era meio tímido, deixa ele na dele. Uma lágrima chegou a sair de seu olho esquerdo na saída do serviço, no elevador. E reparou que o ascensorista não tinha alguns dentes. Na mesma noite se matou.
(Pra tirar o cheiro de mofo do sítio, resolvi postar aqui esse conto, de 99 do século passado, praticamente inédito.)


