Testemunhei outro dia uma cena espetacular, uma dessas cenas maravilhosas do nosso cotidiano absurdo, uma dessas imagens que trazem em si uma resposta dos tempos. É incrível. Não tinha uma máquina digital à mão, mas foi tudo tão rápido que, mesmo que a tivesse, não flagraria a tal cena. Todavia, graças a um bom deus, tinha meus olhos, e minha memória, e agora posso contar o que vi, e o que senti. E a reação hipotética que não tive. Estava dirigindo, infelizmente, porque cada vez me parece mais caro dirigir. Ia sozinho pelas avenidas do bairro-eldorado aqui do Rio, a fajuta pseudo-Miami City que criamos, longe do centro, longe do velho, do sujo, do decadente. (E o irônico, como veremos, é que todos esses atributos do arcaísmo vigente já estão incutidos lá, não há antídoto, só fuga donde o rabo vai atrás…)
À minha frente vinha um carro com o adesivo evangélico clássico “Propriedade exclusiva de Jesus”, ou talvez “Jesus é Fiel”, ou algo que o valha, disso não lembro exatamente. No canto esquerdo da pista, que não tinha acostamento, ou seja, na sarjeta, de pé, uns 3 moleques de rua brincavam, um deles se insinuando pra cima dos carros, como se fosse se atirar neles, ameaçando interromper o fluxo, a máquina do vai e vem. Isso numa avenida onde essas maravilhosas e seguras cápsulas de metal são permitidas trafegar a 80 quilômetros por hora. Eis por fim a tal cena: o crente do carro com o adesivo de Jesus coloca a mão pra fora, faz aquela famosa forma de revólver ou pistola, tão comum às crianças, simulando uma arma com a mão, e dá alguns tiros virtuais nos moleques de rua. O gesto de meter bala, sentar o dedo. Tão simples quanto isso, uma fração de segundo, como quem diz “vocês merecem morrer, escória. Se eu pudesse, matava vocês”. E a maravilhosa reação mental que eu tive, mas não executei – pra não comprometer a integridade física, talvez a razão pela qual não reagimos a nada, e não nos comprometamos com merda alguma, mantendo tudo como está… -, foi a de emparelhar com o babaca, botar a cabeça pra fora e gritar “Qual foi, meu irmão, Jesus tá querendo matar criancinha agora?”
Vá lá que não eram criancinhas, mas moleques de uns 15 anos. Muito mais ameaçador pra um evangélico fascista, mas ainda sim me pareciam mais crianças que bandidos. Eu vejo dessa forma, acho que eles precisam de algum tipo de atenção que ninguém está disposto a dar, e não de bala. No entanto, parece que vem um na ausência do outro. O detestável cristão seguiu seu rumo, com sua detestável esposa, pregando a morte pelas ruas, e os moleques ali permaneceram, brincando de morte, com todos os bons motivos pra continuarem na rua, inclusive pelo ódio dos irmãos.



Por incrível que pareça, pode ser que a pessoa tenha feito o gesto de pura brincadeira, devolvendo o sinal de dar tiro como forma de interação. Digo isso porque pessoas de meu convívio (amigos e colegas de trabalho) já fizeram esse gesto para mim, apesar de eu achar estranho, não gostar e de ter devolvido o “tiro” umas três ou quatro vezes ao longo de minha vida, nem sei porquê. Suponho que deve ser influência dos filmes de bang-bang.
É porque não sabem se valem menos vivos ou mortos. Se é que valem alguma coisa.
É preocupante a maneira como a opressão tem sido colocada como solução para os problemas sociais. Tenho me perguntado se isso não é fruto da crise do marxismo e das idéias de solidariedade social (e olha que não me vejo como pessoa de esquerda…)
Me formei recentemente em História e fico pasmo quando ouço (inclusive de colegas de curso) que “no tempo da ditadura era melhor”, que “não tinha essa violência toda”. Sinal dos tempos: a carência de um paradigma para pensar a pobreza talvez esteja re-letigimando a repressão.
Pode ser que você tenha visto uma coisa que não existiu. Pode ser que o carro seja roubado. Pode ser que o ‘motorista’ não seja o dono do carro (filhinho de papai talvez) e a esposa não seja também a esposa, mas parente, irmã, filha, amiga, mãe. Pode ser que esteja certo ou errado. Não existe valores e nem moral. Pode ser que do seu ângulo as coisas fiquem sem foco e se modifiquem. Mas isso é texto não é? A intenção quem da é você.
“fruto da ‘crise do marxismo’ e das idéias de solidariedade social?” Não entendi. Nosso país é capitalista na economia, na politica, na filosofia, na alma. Há tempos. Sabe o que é isso? Sabe, com certeza. Adam Smith.
Hermes, certamente seria absurdo se eu pretendesse que há vinte ou trinta anos nós vivêssemos numa sociedade solidária. Mas o que eu tentei colocar (sem sucesso, talvez) foi que nessa época havia um modelo ao qual recorrer com certa facilidade para explicar o problema social. Entre as pessoas que têm hoje 40-50 anos, não é muito difícil encontrar aqueles que realmente acreditavam poder construir uma sociedade sem exploração. Hoje, essa opinião se esvaiu. Eu mesmo não a defendo absolutamente. Me parece, contudo, que a carência dessa “resposta pronta” tem favorecido a postura de que simplesmente não tem jeito e com ela outras mais radicais, mais francamente assassinas.
De qualquer maneira, violência, grosseria, insensibilidade não são um problema nem apenas do Brasil, nem do capitalismo, nem de Adam Smith. Talvez sempre tenhamos que lidar com esse tipo de postura assassina. Talvez eu realmente tenha errado a mão e falado uma grande besteira. Minha intenção, no entanto, era apenas apontar para um problema que acredito relevante: re-pensar a questão social.
Eu espero que leia a minha resposta. O nosso pequeno debate está bem produtivo. Reconheço que agi, não completamente, como um opressor de sua opinião. Desculpe-me pela minha aparente agressividade, mas o meio implica no meu discurso (texto, fala, ou o que seja). Há vinte, trinta (eu nem tinha nascido), quarenta anos as informações eram restritas (ainda são, de certa forma). No país e no mundo. Nem todos sabem o que é marxismo, socialismo, comunismo, mais valia, anarquia, capitalismo, economia, política, quais os tipos de governo existentes e ainda a ‘tirania’ etc. Saber para quê?
No nosso país a desigualdade econômica é um pathos que desestabiliza a educação, saúde (…). A pessoas crescem de um jeito e quase não se reconhecem como seres humanos. Saber como? Saber do quê?
Eu penso que, nessa época (a que você mencionou), os estudos eram bem ‘precários’ (hoje ainda são), e, os que eram realizados mal saiam das academias ou do papel. A idéia de comunismo foi altamente reprimida. Pessoas também. O marxismo é o que mesmo? Convenceram a maioria que, determinada forma de governo era assim (do jeito que os que detêm o poder querem que sejam), e a galera aceitou (porque não sabiam ou sabem ou não imaginam o que é). Podiam fazer alguma coisa? Podiam. Queriam? Se você não sabe o que é, e o que quer com relação a isso, como vai fazer alguma coisa?
As informações que chegaram a respeito foram destorcidas. Quem garante o que é verdadeiro ou falso? Quem quer saber o que verdade ou o que é mentira? Existe? Você sabe disso. É formado em História. Sua profissão é reconhecida formalmente? Não é estranho que seja tão desvalorizada, às vezes. Já é profissão mesmo? Cadê lei?
Estranho, não é?
“Entre as pessoas que têm hoje 40-50 anos, não é muito difícil encontrar aqueles que realmente acreditavam poder construir uma sociedade sem exploração. Hoje, essa opinião se esvaiu”
Esvaiu por quê? Quem são eles? Desistiram? Cresceram? Ou era só uma vontade? Que deu e passou (?). Sem pesquisa, eu não respondo. Não respondo pelos outros. Digo, por mim, que não há resposta pronta. E também, uma única resposta, mas várias, que precisam ser elaboradas de acordo com o que acontece.
Eu conheço uma galera que desistiu, mas também conheço quem não desistiu. Eu sou um pouquinho deles. Só lendo os livros dos autores diretamente e tentando entender o que é, e do que se trata, como é, para quem é, onde é, e como poderá ser, e que podemos compreender. Além disso, se lermos e não buscarmos a história do autor, da época em que ele viveu, da intenção que ele tinha, da época atual e da nossa própria intenção, não teremos feito nada. E ainda, se não pensarmos sobre o assunto, pouco adianta conhecer e tentar transmitir ou contar para os próximos.
(Eu ainda não me formei, não sou exemplo para ninguém e ainda me comporto de modo não usual. Sei que o meu diploma não garantirá o meu sucesso e nem meu emprego (indicações…), salário, ou o que seja, mas tenho certeza que, se eu quiser conviver, nessa sociedade ‘igualitária’, vou ter de me adaptar às ‘regras do jogo’. Penso nisso todo dia.
Oi, Hermes, leio sim, tou acompanhando os comentários nesse post. É, seu comentário tinha sido agressivo. Mas, ok, acontece.
Certamente, eu estava errado ao deixar de considerar a difusão dessas idéias na sociedade. Generalizei muito rapidamente uma crise de paradigmas que só é válida para um contexto exclusivamente acadêmico.
Eu disse que “não me vejo como uma pessoa de esquerda” e que “não defendo absolutamente a idéia de que posa existir um mundo sem opressão”. Então, não entendi em que parte você pensou que eu não achasse necessário me adaptar às “regras do jogo”.
Eu só pretendi colocar a importância de pensar os problemas sociais. Meu comentário não era muito pretensioso e deixei de considerar aspectos muito importantes.
Abraço.
Não sou de esquerda. Que bom que você também não é. (À esquerda, aqui no Brasil, atualmente..) Não tenho partido. Mas, por algumas opiniões, minhas, me classificam como um quase comunista. Mas penso, realmente, em anarquia, comunismo e socialismo. Sem briga. Mas, sabe, o processo é demorado. Existem fases. As lutas de classes. Isso complica. Porém, não é impossível conviver de forma pacífica. É diferente. Não assumo uma postura, procuro estudar mais e ser justo. Não sou liberal, tenho até aversão a algumas idéias. (Isso é verdade). Definitivamente. Há ruídos em nossa conversa, sabia? Pois me referi a mim. Penso que eu terei um pouco de problemas, pois, penso um pouquinho diferente. Eu quase sempre me imponho, antes de me expor. Eu não concordo com as regras do jogo que considero injusto. Tento ponderar. Não pensei sobre você, totalmente, pois não lhe conheço. É necessário adaptar-se às regras do jogo? Penso eu que não é, às vezes; mas é inevitável. Loucura. E elaborar as próprias regras parece individual, egoísta, mas pensando um pouco, eu penso que não é, pois quem elabora, cogita, pensa não só em si próprio; e olha muito para os outros. Desculpas mais uma vez.
Você me fez pensar bastante, mas que a prosa, com certeza.
Abraço
“tem mano que te aponta uma pistola e fala serio
explode sua cara por um toca fita velho
click plau plau plau e acabo sem dó e sem dor
foda-se sua cor, limpa o sangue com a camisa
e mande se fude você sabe porque pra onde vai pra que
vai de bar em bar de esquina em esquina pega cinqüenta conto
troca por cocaína, enfim o filme acabo pra você
a bala não é de festim aqui não tem duble
para os mano da baixada fluminense a ceilandia eu sei
as ruas não são como a disneylandia
de guaianases ao extremo sul de santo amaro
ser um preto tipo A custa caro
é foda , foda é assistir a propaganda e ver
não da pra ter aquilo pra voce
playboy forgado de brinco um troxa
roubado dentro do carro na avenida reboucas
correntinha das moça as madame de bolsa dinheiro
não tive pai não sou herdeiro,
se eu fosse aquele cara que se humilha no sinal
por menos de um real minha chance era pouca
mais se eu fosse aquele muleque de toca
que engatilha e enfia o cano dentro da sua boca
de quebrada sem roupa você e sua mina
um dois nem me viu já sumi na neblina
mais não permaneço vivo prossigo a mística
vinte e sete anos contrariando ah estatística
seu comercial de tv não me engana é
eu nao preciso de status nem fama
seu carro e sua grana já náo me seduz
e nem a sua puta de olhos azuis
eu sou apenas um rapaz latino americano
apoiado por mais de cinquenta mil manos
efeito colateral que o seu sistema fez
racionais capítulo 4 versículo 3″
Alessandro – “Última Parada 174″ – Acabei de assistir e não consigo dormir.
Cara, você achou esta cena espetacular? Maravilhosa? Achei os adjetivos meios estranhos…
De qualquer forma, não acho que seria uma boa idéia emparelhar com o outro carro e criticar o cara. Talvez encostar e trocar uma idéia com os meninos, ver se eles precisavam de alguma coisa, dar essa atenção que você mesmo disse.
Estranhos, hein, meus adjetivos…