É como num almoço de família: a expectativa é grande demais. O desejo de avaliar se mamãe mandou bem impede o fluxo natural dos acontecimentos. O desejo de mamãe ser (bem) avaliada, antes de mais nada. De fisgar todo mundo pela boca. Como peixes. Bendita invenção: entre a alavanca e a roda, eu fico é com o gancho. É como se a humanidade toda (um perigo pensar / evocar essa imagem, a humanidade toda) estivesse presa a esse tipo de dogma – avaliar se o caminho tá certo, se estamos fadados a destruição ou não. Avaliar se tá tudo nos eixos, se tá tudo certinho. Se teremos alguma chance, se fisgamos algo.
(Isso quase com amnésia, isso sem olhar envolta, sem lembrar o mínimo que seja do que vem ocorrendo entre os homens, esse sistema legal ao qual a gente chegou. A História dos vencedores, as guerras, santas ou políticas, os governos, os impostos, as indústrias, a publicidade te convencendo a precisar de algo inútil, a miséria galopante em 90% da superfície, as águas podres e o lixo, os peixinhos com câncer, os ursinhos morrendo nos cantos do planeta… Esse jeitinho bacana de viver, onde não damos bom-dia pros vizinhos, onde precisamos de uma tonelada de metal pra ir daqui até lá, queimando combustível fóssil, onde o legal é ter o que ninguém tem, pra usufruir sozinho. Onde estamos submissos a mercados globais controlados por fulaninhos que ninguém conhece, onde as decisões são tomadas às escondidas. Onde existe uma democracia que nos impõe uma porrada de regras e ordens o tempo inteiro.)
Ninguém se liga no percurso. Ninguém se liga no ponto onde se está; estamos sempre tendo que chegar logo a algum lugar, com a cabeça no fim. É uma época em que tudo é excessivamente medido, contado, mensurado. Ninguém tá aqui sem medir de onde tá vindo ou pra onde tá indo. Tá tudo separado: o prazer do sabor. Tá tudo se divorciando. Ninguém mais caminha de mão dada sem se sentir comprometido. Se você domina a língua? Amigo, você traça uma linha estreita e firme entre o que você sente e o que você vive, e isso sai de você como texto. Isso é o que importa. Dominar a língua é ofício de quem quer subjugar alguma coisa. Provavelmente pra medi-la. Me pego nesse excesso de totalitarismos, de hermetismos e de outros ismos. Tenho abaixo de mim 6 mil quilômetros de dólares numa conta numerada na Suíça. Só não achei ainda, mas vivo acumulando tesouros depositados em local muito seguro. Como num almoço de família em que ninguém consegue sentir o gosto real do momento. Enquanto eu não cagar um negócio lindo de dentro de mim não vou ficar satisfeito. E tem que ter alguém pra medir. Estamos fadados a destruição e temos uma mínima chance de nos salvarmos – fugindo. Desse rumo. Hoje sempre é depois de ontem e antes de amanhã, nunca hoje. Propriamente dito. Sigo fugindo, sigo voltando pra casa. É tudo um grande jogo de palavras, amigo. A arte incomoda os satisfeitos e satisfaz os incomodados. Como você mesmo me falou ontem. E a gente preocupado em decidir se estávamos fadados à salvação ou à ruína. Sem destino certo, vale o que acontece.



Quero viver, desesperadamente, o momento, mas, de tanto pensar – sim, muito -, já nem sei se sinto. De qualquer forma, não é tão ruim para o que está de fora quanto é para o que deveria estar dentro.