Sonhei que tinha brigado com minha mulher e estava sem ela num show ordinário de praça pública com um punhado de amigos. De repente um gordinho chega pra mim e pergunta “você é daqui?”
E eu respondo “sou, porque?”
“Eu queria saber se aqui tá tranqüilo.”
“Como? O ambiente? O show? As pessoas? A rapaziada?”
“É. Se tá tranqüilo. Achei que tinha uns caras brigões, esquisitos.”
Subo num degrau de uma arquibancadinha lateral ao palco, olho pros meus amigos, olho envolta, vejo a platéia já meio dispersa, pouca gente, olho pro palco, intervalo, olho novamente pros meus amigos, constato que eles são pelo menos uns 5 caras, não vejo nada anormal em volta, viro pro gordinho e falo “tá tranqüilo.”
Ele me agradece, vira pro lado, abaixa a cabeça e começa a passar mal. Põe a mão na barriga, se curva e faz que vai vomitar. Um cara alto pra caralho, de rabo de cavalo, que estava o tempo inteiro próximo à gente, num lance fulminante de tão rápido, agarra o gordinho, suspende ele há mais de 2 metros. No primeiro momento achei, no golpe de vista, que tudo era pra evitar que o gordinho vomitasse em algo valioso, tipo um quadro que estava apoiado no sopé da arquibancadinha ou algo assim. Porra nenhuma. O altão arremessa o gordinho com a maior brutalidade de cara no chão. Arrebenta ele, seus dentes, sua coluna, tudo de uma só vez, no momento em que ele estava mais vulnerável, se preparando pra vomitar, depois de ter confirmado comigo que estava tudo tranqüilo. Acordo do sonho.
A sensação é de que o perigo tá sempre à espreita, e que tem sempre uma violência latente em tudo que nos rodeia. Nós não a vemos. É como os moradores de rua que estão apodrecendo por aí. Na esquina da tua rua deve ter vários. Circulando. É como o trânsito, o trabalho, a família. As escolas, o comércio, o lazer, os dias da semana. Tudo violento. Violência sobre violência, de origem esquecida ou ignorada. E fica tudo invisível aos nossos olhos. Lembro quando era pequeno costumava ficar com muita pena dos outros. Às vezes de um simples olhar, de constatar o quão pacato era. Me dava um dó danado. Já não sinto mais isso.



As vezes a vida estica tanto que a tensão passa do ponto.
As vezes a violência é muito necessária. outras vezes é apenas o jeito como as coisas são,
É animal e humano, posto que animal humano é mais bruto do que viva fera.