Descalço. Pra sentir o chão. Usar menos. Usar menos o chão pra sentir os pés descalços. Pra sentir o chão com os pés descalços e esfoliados. Pra sentir melhor o chão da membrana que envolve o pé. Pele. Pra sentir descalço. O chão descascando. Pra sentir o chão descarnado do pé descalço que alça vôo. Pra sentir o descalço lambendo o pé no chão. Pra sentir descalço a alegria de estar descalço. E se sentir firme. E sentir firme. Pra estar descalço com o pés na cabeça. Pra sentir o pé. De novo. Pra sentir os pés moles que percorrem o trecho e não ter medo nem vergonha de parar. Pra sentir. Com os pés descalços os amigos desfolhados. Pra ver o sangue com os pés descalços; ter azia e não sentir nada por fora, a não ser saudades. Ver a página inteira preenchida por linhas letras palavras frases pontos. Pra escrever sem regras obedecendo a um fluxo que despreze a preguiça ou a hora de parar. Livre. Palavras gordas e cheias escorrendo e desabando ou pulando caindo de pára-quedas em meio a um bombardeio de lírios. Gangrenado pra sentir o chão com os pés descalços de amigos esfoliados. Com a carne macerada a casca gorda de uma árvore insana enche minha boca de gosto de terra. Mais uma vez uma vez de novo. Pra sentir alcance, com os pés descalços enfiados na orelha ladeira acima. Usar menos e abusar mais ou menos, não ter medo. Enfrentá-lo. Como num cântico antigo; uma ladainha ou uma canção de guerra ou uma toada pra labuta. Enxugar o gelo pra mantê-lo sequinho. Usar um secador de cabelo e um aspirador de pó. Ladeira acima sem ver o começo ou o fim. Com os pés descalços fincados na terra, sem lama ou poeira. Com os pés rachados, amigo. Com a carne usada. No cerne. Com os pés no chão do desalmado e unânime. Rachar o coco. Rachar o sublime. Com os pés descalços descarnados e ainda por cima no chão, como uma pata gorda. Com os pés eriçados ensimesmados e enfiados na orelha que nada e ouve. Que nada ouve. Onde nada ocorre. Um chão. Descarnado amigo. Ambiente. Uma luz de luz. Sem avistar o fim. E sem querer falar. Avistando a luz colorida. Com os pés descalços e descarnados e amigos. Sem ótica e sem ilusão. Um vetor espinhoso numa mente torta ou vazia, descarnada e com os olhos fechados num lugar inspirado. Escondidinho, que não se fala. Emancipado. Usar menos o chão pra não gastar. Ilusão de manos. Com os pés descalços, sem chinelas. Com os pés no chão. Decalques coloridos. Tênis como disfarce. Com os pés iludidos no chão. Com a ladeira da orelha voando no ar. Levitando o pé no chão. Feliz e sem medo, no chão. Apavorado. A maior parte do tempo. Abraçado a tua ilusão. Ser sem ser. Sendo. Novamente. Com os pés no chão e descalço, como um mantra. Descalço. Pra quem sente a planta do pé como um começo de fim. Incongruente, sem medo e descalço. Com tudo, usar menos com os pés descalços. Acordar exausto. Acordar sempre. Com os pés descalços, pra coloca-los no chão. Sem medo. Tirando todas as cortinas. Entrando a luz. Por cima dos muros que voam e voam. Num medo oculto que ladra e esmigalha a coluna. Do meu amigo. Juntos somos mais fortes e pesados. Somos o que quiser, juntos e separados. Toda forma é disforme quando amassada. Pelo vento. Com os pés descalços e cheios de luz. Um chão de vapor. Um vapor que te aposenta. Todas as possibilidades conscientes e inconscientes de uma só vez com todas cartas do tarô. Desconheço meus pés descalços. Sibilando como uma torrente interminável. Num sonho alheio como o meu.
Com Os Pés Descalços
Abril 20, 2009 por capiteo



As palavras estão todas aí, e não me sobrou nada. Maravilhoso.