Até o ladrão tem sua tristeza. Uma tristeza infinita e sem sabor que se multiplica infinitamente no decorrer do sentir. Uma aflição desmedida que não tem origem e também não tem fim. Um sentimento indescritível. Uma dor lancinante que não tem nome nem endereço. Qualquer um pode sentir isso. É só questão de estar vivo. De fato, poucos sentem isso, mas qualquer um pode sentir, e isso é inegável. Ela vem não sei de onde – posso especular, só isso -, invade e fica. O porteiro, o peão de obra, o ladrão, o executivo, a menina, não importa, o mundo tem essa dor e ao mesmo tempo ele não tem espaço pra ela. Ela existe dentro da pessoa. O mundo da pessoa produz ela, e a sufocante sensação de que o mundo a volta, real, é indiferente e ignora a dor, só faz a tristeza aumentar.
Sinto a necessidade de ficar sozinho pra debelar essa dor. Enfrentá-la, entendê-la, olhar pra ela, superá-la. Claro, meu pai vai operar a cabeça novamente e isso me dói, mas não é só isso. É comigo mesmo. É um vazio muito maior, que abarca inclusive essa dor que é saber que meu pai vai operar novamente. É uma falta de espaço permanente, uma falta de nexo na vida, uma falta de amor por ela (vida), uma presença de sofrimento e insatisfação. Quero inclusive ficar sozinho pra não espalhar ela (dor) pra mais ninguém, não por egoísmo, mas por vergonha. Vim pra casa ficar sozinho. Não tem explicação. Falta de vontade suprema, absoluta. Um pouco de raiva de algumas coisas que posso até botar no papel – eu quero atenção, eu sou frustrado, estou frustrado e essas palavras são minhas e só minhas pra ninguém ler. Sinto até vergonha de sentir isso. Tenho raiva do sorriso do outro, muitas vezes. Isso sim é egoísmo, que eu assumo aqui.
Não tenho medo de morrer agora, isso não me preocupa. Me preocupa é ficar sofrendo, sentindo essa porra sem saber o porque. Da última vez que meu pai operou a cabeça – agora vai ser a quarta vez, tumores no cérebro -, quando soube que ele teria que operar novamente, pela primeira vez na vida eu desmaiei. Eu tava sentado fumando maconha, o telefone tocou e meu pai falou “papai vai ter que operar de novo”. Eu acho que eu emendei alguma coisa, falei “vai dar tudo certo” e desliguei. Na seqüência o telefone tocou de novo, eu atendi e era engano. Desliguei e apaguei. Pum, assim. Tava com um amigo que me acordou. Nunca tinha desmaiado antes, e fumo maconha com bastante freqüência e também nunca tinha desmaiado por fumar maconha. Fiquei triste pra caralho quando lembrei da notícia mas tive a reação imediata de querer desesperadamente viver muito. Me veio a cabeça que eu poderia ter a mesma doença que meu pai, que meu avô também teve, alguma relação com herança genética. E que meu pai podia morrer. E isso me deu uma vontade louca de fazer as coisas desenfreadamente, totalmente instalado no presente, sem parar, sem cansar, sem cessar. Acordava cedo todo dia com a maior disposição para fazer o dia, e tudo que cabia nele, sem parar.
Dessa vez não, dessa vez foi diferente, a notícia veio aos poucos. Da outra vez meu pai estava há 10 anos sem operar, e ficara uns 8 anos sem fazer os exames anuais de rotina, por medo. Fui eu quem o convenci a fazer o exame, e lembro que no dia fui eu, ele e minha mãe, e quando ele entrou sozinho para fazer o exame eu senti medo e comecei a chorar e minha mãe me abraçou forte e me consolou, e essa deve ter sido a última vez que eu chorei nos braços da minha mãe. Agora a gente já sabia que ele tinha quatro tumores, que crescem muito lentamente, e que às vezes param de crescer, mas tinha um que estava crescendo, um pouquinho. Fizemos um exame e o neurocirurgião pediu mais um exame pra daqui há seis meses, e ficamos todos aguardando, fazendo figa baixinho, cada um no seu casulo.
Protelamos inclusive um pouco o exame, mas acho que no fundo todos já sabiam que não tinha jeito, meu pai teria que abrir a cabeça novamente. Eu não fiquei assim arrasado de bate-pronto, fui ficando aos poucos. Anos antes, quando dos primeiros exames de rotina depois da última operação, já haviam três tumores pequeninos, o médico falou que havia surgido um quarto e eu fiquei arrasado. Aquilo foi uma sentença de morte pra mim. Minha mãe e minha irmã disseram “está tudo bem, não houve notícia ruim, não vai ter que operar” (pela época), mas eu fiquei mal. As titiquinhas se multiplicavam.
Meningiomas. É o nome do bicho. Eu mesmo não tenho mais essa perspectiva de que eu vá ter essa doença, como meu pai e meu avô tiveram, mas o andar da carruagem foi me fazendo triste. E mais uma pá de coisas. Perdi a confiança em mim. Acordo mais tarde, e cansado. Sou casado com uma linda mulher que me ama, e eu a amo, mas estou perdido dentro de mim, e tenho muito medo de isso nos afastar. O tempo não pára e eu me sinto um nada, um zero à esquerda, um inútil, vazio.
Bom, nesse meio tempo entre uma operação e essa que se anuncia para daqui há dois meses passaram-se alguns anos e eu fiz uma pá de coisa, com a minha pretinha inclusive (e principalmente), minha esposa. Terminamos um curta metragem em película, nosso primeiro juntos e de ficção, contraímos dívidas, captamos dinheiro público para fazermos um longa-metragem documentário cujo argumento inventamos juntos, que trata da minha cidade natal, e que tem por princípio desmascarar a hipocrisia que cerca o mito acerca dela. Abrimos um escritório lindo pra nossa produtora, que antes era em casa, aliciamos mais uns amigos, os prediletos, eles realizaram um piloto de programa de tevê que vendemos pra um canal (que paga mal demais), e a série vai bem, de vento em popa.
Eu voltei a escrever, depois de anos escrevendo uma vez por ano, ou quase isso, e agora escrevo quase todo dia, e publico num blog na internet. As vezes me parece inútil porque nunca sou lido, ou quase nunca, mas foda-se, eu continuo escrevendo porque acredito que essa seja minha principal ou verdadeira vocação, mais inclusive do que a realização cinematográfica. Filmei o projeto de longa-metragem, tudo baixo custo, e me perdi ao longo da montagem. A fotógrafa do projeto vinha montando comigo e com mais um montador, que é nosso sócio, mas a coisa não andou bem. Eu quis que duas pessoas que nunca haviam trabalhado juntos trabalhassem, e não deu certo. Como a fotógrafa-montadora tinha dificuldades na dupla função, dificuldade pra procurar um caminho dentro do que ela havia filmado, ela acabou saindo do projeto, ao menos por hora.
Eu aprendi a montar, e minha preta encontrou seu lugar dentro da estrutura, o que foi muito penoso. Muito homem e pouca mulher, acho que isso pesou muito. Meu filme ficou na mão do outro montador, que é também diretor e fotógrafo da série televisiva que criamos. Ele tem um rítmo muito peculiar, talvez proporcional ao seu talento, para montar. Eu sou um grande “matutívago” e ele é um grande notívago, e por isso quase não nos encontramos de verdade em momentos produtivos, e o processo ficou bem estanque. Eu me sinto quase que longe do meu próprio filme, e perdido dentro de mim. Por isso a dúvida tão grande quanto ao fazer cinematográfico, e por isso o desejo de escrever.
Não sei mesmo se tenho algum talento para escrever, mas tenho o desejo de descobrir, dar a cara a tapa. Escrever muito, e sem parar. Outro dia fui reler um texto meu, um possível romance, e não consegui passar da terceira página. Muita auto crítica. Veja esse possível romance – comecei a escrevê-lo em 97, com quatro páginas, e depois retomei em 2003, quando não conseguia terminar a montagem do meu primeiro curta de ficção, e escrevi mais umas 15 páginas. Digo que é um possível romance porque tenho quase tudo delineado dentro de mim, e a história é longa, mas não consigo mais parar e ter o ímpeto e a coragem de continuar colocando palavra após palavra para construir o que está em minha mente.
Tenho alguma facilidade para escrever prosas-poéticas herméticas, e às vezes isso quase me soa como “tenho facilidade para escrever coisas sem sentido, quase aleatórias, mas que estão impregnadas de mim e de tudo que eu sinto”. Consegui uma interlocução maravilhosa com a minha princesa, que também é escritora, mas aos poucos a coisa deu uma minada, não por outra razão que não o processo, o caminhar mesmo. Fico cauteloso e receoso toda vez que mostro um texto pra ela porque tenho quase certeza de que ela me dirá que está lindo, e pouca coisa além disso. Tenho a nítida impressão de que ela sempre é completamente sincera mas acho que perdemos um pouco do distanciamento que tínhamos em relação um ao que o outro escreve, e vice-versa, talvez.
Sinto que fiquei sem espaço para mim dentro de mim, e mais ainda nos lugares em que vivo, basicamente minha casa e meu escritório, e não sei até que ponto isso tem a ver com o que se passa com meu pai. Realmente quando penso na minha família muita coisa me frustra e sinto-me sempre como o filho da puta inconformado e sujo e quer mudar o estabelecido. Isso poderia até ser bom se não me fizesse sofrer tanto. Meus amigos, que eu amo, tomaram de assalto o escritório da produtora de uma forma tão completa que eu me sinto sem espaço lá, muitas vezes. Hoje me senti assim, e quis vir para casa ficar sozinho. Eles tem dormido lá quase todo dia, e eu tô longe de estar com essa disposição.
Fizemos, um pouco antes, um trabalho que me consumiu muito e que me frustrou profundamente, apesar de ter dado tudo certo. Coordenei a finalização do DVD de uma banda famosa, e muito boa – coisa rara hoje em dia -, para uma grande gravadora. Na ocasião eu tive o ímpeto de fechar o negócio e capitanear o trabalho, e viramos várias noites trabalhando. Cheguei a ficar 52 horas trabalhando, sem me drogar, só na adrenalina, e de alguma forma esse trabalho gerou uma expectativa de um reconhecimento, uma oportunidade para novos trabalhos, e o fato foi que nada disso rolou. Sequer recebemos amostras do trabalho. Nem um telefonema de agradecimento. A coisa foi pro limbo. Esquecimento. Olvidou-se.
De lá pra cá a coisa cresceu, o tal programa bombou e eu fiquei com medo. A melhor coisa que fiz foi voltar a escrever, com força. Criei meu blog e me atirei na rede. Algumas coisas legais até aconteceram, mas muito pouco, ainda muito frustrante. Claro, imagino que o principal problema seja o excesso de expectativa, mas quem não quer ter o trabalho reconhecido?
Com o incentivo da minha esposa fui anteontem almoçar com meu pai para tentar arrancar algumas verdades não ditas da sua boca. Sei também que muito da minha tristeza vem da tristeza do meu pai. Ele quase entregou os pontos, como se diz. Ele mora com minha mãe numa confortável casa de classe média alta no bairro dos emergentes – casa que eles rebolam pra sustentar -, mas são separados. Minha mãe teve coragem para separar do meu pai quando ele voltou da última operação, e ele não reagiu muito bem. Vai saber, todo mundo é tão burro e desastroso. O casamento deles, até onde lembro, era uma merda mesmo, um reprimia o outro que reprimia o outro, mas nunca tinham conseguido se separar de verdade.
Meu pai surtou, foi a maior merda, seguramos a onda como deu, e ficou uma porrada de marca. Depois meu pai melhorou, chegou até a ficar sereno, arrumou uma namorada, pela internet, e minha mãe pirou, e meu pai retrocedeu achando que teria ela de volta. Minha mãe mesmo falou uma vez que ela era tipo uma mãe do meu pai, e que queria cuidar dele até a morte etc. Cada um com sua perversidade. Depois meu pai se engraçou com uma cuidadora que cuidava dele e minha mãe demitiu a mulher, é claro. Esse tipo de assombro que passou por mim nesses últimos anos.
Bom, fui almoçar com ele, meu pai, e queria saber quem ele era. Não dá para chegar e perguntar “Pai, quem é você?” que fica meio sem sentido. Comecei perguntando “qual a coisa que você mais se lembra de antes de ficar doente?” Ele me respondeu que era do trabalho dele. Aí eu fiz uma porrada de pergunta que nunca havia feito, sobre um episódio que marcou muito a minha família e que sempre foi muito obscuro para mim. Meu pai é engenheiro de formação mas foi trabalhar com Marketing logo logo, e depois foi pro mercado financeiro, e quando ele estava na crista da onda da sua virtude, virando banqueiro, teve o tapete tirado.
Resumindo: ele trabalhava numa Corretora de Valores cujos sócios operavam, através de uma outro corretora, de outra cidade, com um pilantra que quebrou o mercado especulando. Meu pai havia saído dessa corretora, numa grande tacada dele, num reconhecimento pelo brilhantismo que tinha para finanças, indo virar sócio de um banco de investimentos. Meu pai me afirmou que desconfiava que os sócios da corretora operavam com esse pilantra, mas não fez nada para evitar. É evidente que quando você vira sócio de um banco de investimentos sem ter uma carteira só podem estar querendo a sua cabeça, com toda ironia. Ele ficou seis meses banqueiro, e nesse almoço me contou como estava feliz nessa época e tudo mais, e como dizia para minha mãe “Agora eu sou banqueiro. Eu sou banqueiro”. Um belo dia foi mandado embora.
O banqueiro (de fato) que o havia contratado nem quis recebê-lo para explicar o porque. A corretora da qual ele havia sido diretor-superintendente havia quebrado junto com outras dez ou doze instituições e o Banco Central o havia indiciado. Ele é casado em comunhão total de bens com minha mãe e os dois tiveram os bens bloqueados, e isso dura até hoje. E é horrível, uma sombra de 19 anos. O que eu senti no almoço foi uma grande satisfação em ouvir do meu pai essa história, pra saber que ele havia surfado na crista de sua onda e depois caído feio. Ficou deprimido, ele me disse. Nunca tinha sido demitido, e dessa vez, quando ele estava certo de que havia virado banqueiro, e ele foi desligado do negócio de maneira humilhante. E ainda havia incluído minha mãe e seus bens na roubada.
A satisfação que tive foi de compreender meu pai como um homem, e vislumbrar um pouco do que ele viveu e sentiu. Depois dessas indas e vindas que contei, da última operação, de separar, namorar, se engraçar, enfim, depois ele ficou muito deprimido, e agora tem muito pouco ânimo para viver. E agora vai ter que operar a cabeça novamente. Difícil enfrentar uma coisa dessas sem encontrar um bom motivo. Vamos ver.
(texto escrito há mais ou menos 1 mês atrás)



Não se preocupe. Esse blog é lido e analisado.
Força sempre!
Eu leio tb. E torço pra dar tudo certo.
eu leio tb, e te amo muito. vai dar tudo certo.
bjs.
teo, quero te emprestar um livro, “Quando Teresa Brigou com Deus”. você conhece? é um romance do Jodorowsky em que ele narra a saga dos antepassados, transmuta a história familiar em mito. você escreve bem melhor que ele, mas a idéia do livro é demais, transformar a memória e os afetos em périplo heróico… toda família dá um romance, vários aliás. acho que além dos dilemas que a gente enfrenta nesse mundo em chamas tem uma coisa difícil e rara — a descoberta de que a vida é caos e sobrepujante e isso independente da época (acho). aí resta a manobra de arrastar a raiva pelos cabelos e deixá-la amainar num lago tranquilo. nada fácil. um beijo grande, lu
Força.