Fui a um show, coisa que não faço quase nunca. Evito; acho estranho, impessoal, o ídolo e o altar, os devotos. Sou meio arredio a multidão, a público. Fui porque gosto do artista e recebi convites, e uma pulserinha.
Tudo ótimo, intimista, e na hora de ir embora, alguns amigos, que estavam próximos o show inteiro, mas incógnitos, botaram pilha para que fôssemos ao camarim. Fomos sendo levados por isso, eu, minha mulher e minha irmã. Chegando lá, o óbvio: todo mundo queria falar com o artista. É nesse tipo de momento que eu realmente não quero falar com ele. Me causa repulsa disputar a atenção dele nesse momento, no camarim.
Pois então resolvemos sair fora. E, indo embora, no caminho entre o backstage e a saída da casa de shows, 3 fãs nos vêem com as tais pulseirinhas de acesso irrestrito e pedem “Podemos ficar com suas pulseiras?” Sem hesitar – tampouco pensar – arrancamo-nas (elas são feitas para não saírem nunca…) e entregamos a eles.
Simultaneamente, o empresário do artista – que foi quem havia me dado os convites e as pulseiras (só havia pedido 3 convites, as pulseiras vieram de brinde) – me vê e diz, de prima, “ seria melhor se vocês não fizessem isso, para não estressá-lo”, se vira e sai fora.
Eu fiquei perplexo, pensando mil coisas: eu não pedi pulseira, por outro lado a pulseira é minha e eu posso entregá-la aleatoriamente pra quem eu quiser, o artista sempre me afirmou que adora pessoas, o stress é inevitável, que sujeito antipático é esse empresário que nunca me conheceu e nunca vai me conhecer, e só teve esse reflexo atrapalhado e instintivo de me dar um puxão de orelhas, os fãs desse artista são verdadeiros devotos e os 3 que receberam nossas pulseiras são ratos de show pra se ligarem nesse tipo de oportunidade, mas que sejam felizes, e, principalmente, não tem ninguém preocupado com o meu stress.
Pois bem, eu contribuí para estressar o artista após seu show, mas ninguém contribuiu pra aplacar meus nervos, nos prantos convulsivos da melancolia profunda, nos juros, nas hemorróidas, nos dry martinis depressivos, nas doenças, no patético e deprimente momento de se entregar a um espetáculo sob o risco de se afogar no anônimo desejo de não ser ninguém, mas correndo o risco de ver o artista se locupletar sem stress. O recalque é meu e eu meto em quem eu quiser.
Só consigo ouvir “seria melhor se você não tivesse vindo”, mas não me arrependo de ter ido, e de ter dado as pulseiras. Me enrosco em meu medo mas sigo querendo.



A arte e’ mutua e faz bem.
nao existe nada mais mico, que camarim depois de show… pelos sorrisos roubados no momento de trabalho, e pelo povinho q só aprece pela cerveja.
afe!!!!!!
no carnaval de 2006, o pablo baiao (conhece?) tava fantasiado de pastor evamgélico da maconha, distribuindo pulserinhas “hippie” pro povo do gargarejo. genio!
saudade de vc! o larica tá divertidissimo!
beijos pra vc e pra sua esposa