Tenho sonhado em visitar um amigo, e ao chegar lá ele me diz “pô, tô te esperando fazem mais de mil anos, a gente quer que você seja nosso agora” e me aponta uma turma em volta que conjectura idéias baratas e mofadas como se fossem sofisticadíssimas teorias científicas e então eu digo “não creio em deus, mas fico pequeno as vezes ao ponto de precisar de sua ajuda” e eles me argúem sobre como ser sem ser sendo, e nisso eu digo “quero que vocês sejam um deus qualquer, pra que eu possa fugir” e encontro em todos alguma coisa de uma fome insaciável. Ao descer pela escadaria que liga dois lugares remotos um porão draga mais da metade da turma, uma parte nua, a outra vestida, todos se misturam e uns gritam aos outros “eu quero ser seu deus, eu quero dançar com você” e o tamanho do constrangimento mútuo que se impõe ensurdece a todos por alguns instantes. Procuro vagar sem sentido entre eles e isso geralmente me mantém atento porém vazio, em mim mesmo, ensimesmado e com pouca disposição para discutir minhas próprias teorias científicas precisas e afiadas como a mais ardente poesia e vejo novamente todos juntos com a mesma dúvida, enquanto caminham mais uma vez incoerentes e sozinhos, todos de mãos dadas e infindavelmente vazios. Cada um persegue uma sombra e um deus em um altar secreto e cada vez menos se escutam, não há nenhum tipo de tesão, a não ser uma euforia misto de ignorância, resistência e ingenuidade, muita chateação para um caminho tão estreito, todos se esticam e agora já não se abraçam mais, querem disputar entre si uma crença de fé imbuída de um preconceito besta. Desacredito essas idéias tolas que a maior parte me expõe até que bate retumbante em meus ouvidos alguma matéria encantadora, sinto como um mantra entoado por uma minoria que não queria mais visitas de deuses, muito menos da ciência, e muito menos ainda de altar secreto, qualquer que seja sua crença. Desprezo a maior parte desses sentimentos pra descobrir que estou sozinho.
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