Tento me esquivar de certas evidências inegáveis acerca de coisas que devo fazer. Devo – no imperativo -, não devo a ninguém, não há quem me obrigue, a não ser eu mesmo, e umas idéias, uma vontade, um desejo. Mas fico sempre rodando em volta do meu próprio rabo, adiando, adiando.
Raras são as vezes que algo diferente disso se impõe, e não sem um esforço grande. Talvez numa dessas vezes atravesse uma ponte sem volta, onde esse freio, esse pudor, essa preguiça que me fazem fugir tanto vão embora de uma vez por todas. Uma hesitação. Como uma grávida sempre no primeiro mês, só os enjôos me acometem, e nunca minha barriga cresce.
Fico mesmo fingindo que estou falando sobre nada, mesmo esbarrando em clichês um tanto batidos, eu sei, pra que eu possa ao menos falar. Sobre subjetividades que me parecem quase enfadonhas, às vezes, mas ao mesmo tempo é claro: não devo nunca negá-las, sob o risco de estar fudido mesmo, deixar de saber quem eu sou etc.
Posso tentar algo mais rítmico, mais fluido, menos comprometido. Mas comprometido com que, se nada aqui se intromete? Penso mesmo que o escrito que sai não deve ser lido sem um grande ridículo como sonhar estar nu em pêlo no pátio do colégio.
Aí sim uma imagem que me contenta, estar pelado no pátio do colégio, não há nada mais inédito, nada tão visto, nada tão unânime. Fica a pergunta: saciar o que? Uma demanda por imagens vertiginosas, isso sim, mas só o culto ao choque?
Isso porque me parece tudo tão amordaçado, tão suprimido, bestializado, amortecido, anestesiado, adormecido. Tudo consumido num frenesi desejante por inclusão. Quero ser incluído do lado de fora dessa merda toda.
Fico sempre nauseado ao ver nos jornais um encontro de bacanas. Sempre todo mundo tão satisfeito, tão cheios de si, conformados, preocupados em se manterem lá, e uma das maiores prerrogativas é sorrir sempre, sem questionar.
Outro dia mesmo vi uma dessas piranhas da moda que, como uma exceção, havia chegado lá sem fazer fotos ousadas. E que, estando com a carreira de vento em popa, decidira fazer algo ousado, um ensaio com um pouquinho de putaria visual, mas nada muito sério até porque a dita cuja não é sequer muito bonita.
Se não vejamos: a idéia de fazer algo ousado é resumida em um ensaio fotográfico mais ou menos sensual numa revista do gênero, de grande circulação. Nunca passou pela cabeça da vagabunda fazer algo ousado como ir pro Congresso gritar impropérios aos Congressistas. Ou explanar alguma posição política que chocasse a classe média, a alta, a baixa. Talvez algum aristocrata risse mais do que chorasse ao ver alguém fazer um furinho no imperscrutável. Ou falasse “uso drogas quase o dia inteiro, e tenho um vida normal de celebridade, sou amada em todo Brasil”. Ou escrotizasse publicamente alguma empresa contratante que a sacaneasse.
Nada disso, no país supostamente (pelas vias idiotas da opinião pública, ou do senso comum) mais sensual do mundo, a ousadia da celebridade é fazer um ensaio sensual! Me custa a crer que a minha subjetividade tenha me trazido até aqui, mais uma percepção obtusa da realidade dessas que me deixam grávido, mas só de primeiro mês.
E quem leu isso até aqui – e sei que é impossível escrever sem pensar em ser lido, mas é fácil pensar nos que desistem de ler muito antes de terminar, como eu mesmo, tantas vezes – num pode supor até onde esse caminho vai, eu mesmo não me arrisco a mirar um lugar pra onde eu possa ir.
Só mais um pouco, só mais um pouco, só dessa vez, só pra superar essa gravidez. Quero dizer algo que não sei o que é, e não quero parar até descobrir.


