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Ontem na TV

Ontem eu vi na TV
Um idiota perguntar ao outro:
“Se as drogas fossem legalizadas no Rio hoje a cidade teria paz?”
E o outro respondeu “Não.”

Faltou um idiota perguntar ao outro:
“Com as drogas proibidas, o Rio tem paz?”
Mas idiotas
Não costumam fazer
Esse tipo de pergunta.

Se fizessem
Poderiam concluir
Que as drogas
Nada têm a ver com paz.

Tem país
Onde se entra
Num estabelecimento comercial
E se pede:
“Um pacotinho de maconha.”

E nem por isso
A paz está
Ou deixa
De estar lá.

Mariposa de Luxo

Senhoras e senhores, eu vos apresento um novo bicho: a Mariposa de Luxo.

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Foto rara do novo bicho.

(Quem nunca ouviu falar em novos bichos, por favor, clique aqui, compreenda o conceito e de quebra conheça o novo bicho que deu origem a série, o mítico Robilou Manteiga.)

Diferentemente de Clovis Bornay, a Mariposa de Luxo não é luxuosa pra competir em concursos de carnaval; ela é brilhante, vermelha e azul fosforescente, de asas sofisticadíssimas e caráter genioso por que nasceu assim.

Espécie de patinho-feio às avessas, ela desde pequenininha foi discriminada pelos amiguinhos por ser bonita demais. Hoje está bem adaptada a vida adulta; brilha e voa sem medo.

Sua dieta é ainda ignorada, apesar de demonstrar leve propensão ao canibalismo. Desconfia-se que ela cague purpurina, mas isso é outro detalhe, muito remoto, pessoal e de pouca relevância científica. Neguinho desistiu de pesquisar isso, aliás.

A Mariposa de Luxo, senhoras e senhores, é mais um novo bicho. Antes não existia, agora existe. É isso aí, muito obrigado pela atenção e um abraço.

Ame

Um ícone no altar. Uma luz reluzente com a voz mais sensual do que tudo o que existe, doce, delicada, sofrida, cultuada e cultivada em um milhão de prantos silenciosos ou barulhentos, gemendo de emoção, carcomida, voz de quem não se conhece, voz de quem deixou de ser, esqueceu quem era, voz de padeiro, cartomante, bailarina, general, balconista, faxineiro, manicure, babá, quimera, oráculo. Uma voz em cima do palco, cristalizada num reboladinho suave, toda irrigada de sentimento e emoção, a voz de todos nós, bichas, advogados, putas, ladrões, viúvas invisíveis, machões infames, madames idiotas, frívolos de plantão, introspectos naseabundos, vaidosas laceradas e disformes, piranhas lascivas ou indiferentes, lésbicas adoráveis ou assexuados embalados a vácuo, uma voz inebriante com mais de mil olhos voltados pra si. Ela, em cima do palco, um ícone no altar. Mil olhos. Ela não olha pra nenhum dos mil olhos. Ela só canta e rebola. Por que suas lágrimas secaram e quando ela lembra quem é, prefere esquecer. Ela volta pro palco, sempre. Quem é mais forte que quem? Ela prefere não ter que olhar pra ninguém. Não há outra novidade em sua vida senão o fato de que, constantemente, ela se acha inútil e vagabunda, imprestável e solitária, um traste, feia, horrorosa, burra. E aí, se vê impelida, novamente, a voltar pro seu altar. E reluzir tão intensamente que ofusque tudo a sua volta, e ela pare de se sentir uma merda. Pros outros. Não importa que ela tenha posto silicone na bunda ou na xereca ou quebrado um quarto de hotel sentando na vara de um negão em Papua Nova Guiné. Não me importa. Ame. Ou deixe. De volta ao palco, até a atrofia absoluta do eu. Sem novidades. Ame e cante. E rebole.

Jazz, pero no mucho.

Ouvindo música (Monk), me ocorreu o seguinte:

Miles Davis e Chet Baker ficaram longos períodos sem tocar / gravar. O primeiro, por que tava todo arrebentado de heroína, que nem uma salamandra etíope, entre a vida e a morte. Aí ficou uns 6 anos sem gravar, se não me engano. O segundo, Chat, entrou na porrada, se não me engano também (pode ser que tenha sido uma porrada de carro), e perdeu os dentes da frente. Ficou sem conseguir fazer sua enbocadura no trompete. Disseram que seria impossível voltar a soprar. Ele insistiu mais que tudo e conseguiu. Acho que levou uns três anos. Adestrou as gengivas frágeis e mais os lábios delicados pra darem conta do recado.

O Thelonious Monk também ficou um longo período sem gravar. Até morrer. Uns doze anos. Por que? Nenhuma das razões acima. Uma parada de dentro pra fora. O cara era loucão mesmo, cascagrossa. E não era lance de droga; era de natureza. E aí, acho que um belo dia ele cansou, e nunca mais. Por que, quando você vê o cara tocando, você vê que ele trabalhava no limite da loucura. Dá uma olhada.

Neguinho deve dizer que o cara era bi-polar, esquizo, whatever, não importa. O cara era um artista, e a loucura maior, senão a coerência maior, foi que um dia ele perdeu o interesse por aquilo que o movia com o maior dos vigores. Ele largou, abandonou o que saía de si, pelos dedos, pelo corpo todo. Secou. E morreu (senão me engano…) em 1982, sem grande estardalhaço; passara doze anos em silêncio, a máquina sonora de outrora num retumbante silêncio, sem uma suposta razão concreta, como costumamos dizer. Vai saber o que é isso, se não era o desejo dele a coisa mais concreta do mundo…

A mais nova novíssima invenção da máquina de novidade: a máquina de bagunça pra dentro. Por que todo dia não suportava seu trabalho e precisava entrar pra dentro de si. Daí que veio com essa. Não foi difícil; estivera guardada num bolso do cérebro desde criança, precisou só despertá-la. Era apertar forte os olhos, olhar pra dentro, e dar um cambalhota sem sair do lugar, ali, na sua cadeira dura do seu escritório opressor. Podia fazer isso em silêncio, sem falar com ninguém, sem dar bandeira. Em coisa de segundos curtia uma baguncinha por dentro, algumas até de cunho sexual, suoreszinhos, gemidinhos, baixinhos, sem ninguém ver, pra dentro de si. Cambalhotinhas, galhofas, engazopação. Tudo em silêncio, no maior estilo, como um salto mortal pra dentro de si. No máximo franzia a testa, e assim ia levando. Fazendo bagunça pra dentro, sozinho, em silêncio, não obstante toda dureza.sadeyes1

Verão

E no caminho, muitos de nós não aguentarão, e sucumbirão, nesse mesmo e único caminho que seguimos, indivisível, imprevisível, único. E outros tantos nós desatarão. Por que a vida é pesada e o fardo é grande e quanto mais amamos, mais perto estamos. Não levar ressentimento pra cama, tampouco desaforo, e não esquecer: toda premissa se coloca acima da existência. Quanto mais perto da morte, mais livre? Por que velho aguerrido me emociona: contraria o princípio moral do “eu mereço, pois estou cansado”. Meu chicote rasga o lombo ao longo da caminhada, do começo ao fim. Caminhar, caminho, carinho, cadinho. Dos males, o verão. Calma e cama, e os dois juntinhos. Catapulta o jogo pra onde tu quer chegar, catapulta, vai, catapulta e veja. Conceda a você o direito de não fazer mais concessões. Conceda, e verá que não há resposta certa. Nas palavras do velho poeta: tudo é exílio, tudo, menos a poesia. Poesia é a autoajuda da desesperança. Pouca gente compreende isso. Eu penduraria Platão e Sócrates juntos numa forca, na minha república fugimos todos pruma aurora perpétua de tanto sentir. Dor e prazer, tudo misturado, sangue, esperma, gozo e agonia. Emoldurado num quadrinho de flores malvadas, tudo junto, Baudelaire e Jesus Cristo de cintas-liga, into leather. Sem economia, sem concessões, sem frescura. Girassóis na rede e tudo mais, pra bom entendedor um bom amigo basta. Por que adulto não dorme bem; isso é pras crianças, que sabem sonhar, ainda, enquanto não se esquecem.

Entre o abismo e os jornais

Pare você e pense: os jornais são insuportáveis. Eles não servem pra nada a não ser adestrar. Não te fazem uma pessoa melhor. Tudo que está aí não vale nada. Nenhuma novidade. Olhe pra dentro e veja: qual a diferença de hoje pra ontem? Claro que, se hoje chove, a diferença se anuncia no tempo. Mas se o horizonte está na mesma altura e temperatura de ontem, e as esquinas continuam sendo dobradas por pessoas indo e vindo, pare. Não passe a vista no jornal. Nunca mais. Não ouça as rádios. Não veja a tevê. Escolha. Não pense que um sorriso coca-cola vai te salvar. Rumine o ar de si mesmo defronte a um abismo. Mesmo que o cheiro seja insuportável. Esqueça-se. Há um lampejo de sagrado em todo medo que te abomina. Um desejo infame de indesejar. Pela vida a fora, cheia de curvas pelo caminho que não encostam em si. Fique cansado e escreva um manual de auto-ajuda enquanto estiver sozinho. Mesmo que ele seja pornográfico. Pense que dentro de você há um mim. Você é seu centro. Tudo que você percebeu foi percebido a partir de você mesmo. O fora está dentro de você. O fora não existe. Não é demais dizer que o que se configura como você pode ser a sua salvação. Entre. Entre dentro de você. Não olhe mais pra fora, não consulte o horóscopo e não leia os jornais. Principalmente, não leia os jornais. Eles são cheios de publicidade suja e novidades inúteis que te distraem, retraem e traem. Cheios de perfídia. Seja leal e fiel a si mesmo, ao que você pensa no escuro, sozinho, à sombra. Sonhe com suas melhores cores. Adormeca no furacão, o seu furacão. Ignore o que ocorre onde você não vê. O que você vê já é muito. Seja menos. Mire-se no seu redor. Sinta o que seu coração sente. Seus sonhos hão de prosperar. Dentro de ti. Sem rumo. Sem nexo. Cabisbaixo ou não. Creia-se. Não há fórmula correta. Tampouco forma. Todo mundo há de pensar, há de correr, há de ficar. Debaixo da terra. Não siga instruções. Traga no bolso sempre suas próprias imagens prediletas. Não acredite no consumo. Escreva coisas sem nexo. Adestre-se sem prumo. Abandone o pudor. Cometa seus erros originais e tenha em vista que deles nascem os mais autênticos complexos. Coma seu macarrão com frango terças à tarde e tenha nojo da carne de uva na sua boca ao romper a casca.

Ode ao nosso carrinho

De todos os motores a explosão,
São fundidos os que perdem seu hermetismo.
Batem e travam
Como chincheiros à meia-noite.

O mecânico-poeta nos disse:
O motor abandonou.
Faltou-lhe o visgo
Pra lubrificar as entranhas.

Por um período andou seco
Como buceta frígida
Carente duma mandioca
Que a irrigasse.

Quando o molho chegou,
Tarde demais.
O pistão e o cilindro
Já não se falavam mais.

Fundiu, tá fundido.
Ao ex-carro:
Que o aguarde
Um futuro retificado.

Idiossincrasia

Fora sempre meio retraído. Taciturno, introspecto. Também, pudera, filho de um ascensorista de elevador tricolor e de uma costureira paralítica e desdentada… Aos 16 anos começou a trabalhar como boy para complementar a renda familiar. Aos 20 já quebrava um dobrado atrás do computador, 14h por dia. Com o tempo aprendeu até a falar com os colegas de escritório, mas sua vida social e a sexual continuavam nulas. Nulas. Comera, em toda sua vida, umas duas putas de Copa e uma empregadinha que morava no mesmo conjunto habitacional que ele, em Jacacity. Sempre almoçava sozinho. A única pessoa do escritório que o convidava para almoçar era um superior bicha, e ele preferia não. No presente momento, estava curtindo aquela clássica melancolia pós-rangum, num pé sujo do Centro, próximo ao escritório. Preparava-se então para voltar a sua mórbida labuta quando uma loura, não que tivesse o rosto muito bonito, até que dava pro gasto, mas com peitos e bunda simplesmente maravilhosos, portentosa, opulenta, bicos do seio do tamanho da boca dele, uma deusa, uma musa transcendental, intocável, pertencente ao mundo das idéias, algo de essência da mulher, esbarrou nele. E foi aí que tudo aconteceu. Ele começou a sentir tanto tesão, mas tanto tesão, como nunca havia sentido até o presente momento, como ele nem sabia que se podia sentir tesão, que por um breve instante, talvez um pequeno interstício temporal, atreveu-se a sonhar que estava graciosamente acomodado no colo dela, com a cabeça docemente recostada sobre aqueles seios aconchegantes, beijando-os, mamando, e ela, com a mão por dentro de sua calça, pegando em seu pau, tocava uma punheta e dizia “como você é gostoso, esse seu jeitinho retraído, que tesão…”. Mas no instante seguinte ele viu a expressão dela mudar de “opa, desculpa!”, ou ainda, “ai, que susto, foi mal…” para “seu idiota completo, palerma, seu mortal ridículo e inferior, como ousa esbarrar em mim, a inventora da buceta?”, e a partir daí ele foi se sentindo triste como também nunca havia se sentido antes, triste como nunca havia imaginado que se pudesse ficar, triste e oprimido e um peso em seu peito foi crescendo e a dor foi aumentando, e realizou então que estava a anos-luz do último dos homens ou que era quase nada, ou talvez um pouco menos, e achou que o mundo ia acabar ali, com uma grande explosão, tudo culpa dele e de sua pretensa imaginação, de seu ego reprimido que resolvera se libertar logo naquele momento, num ato de extrema arrogância… não poderia ter desejado-a daquela forma, ou melhor, não deveria nem ter olhado pra ela. Ai, meu Deus, que qu’eu faço agora?, e só soube fugir. Sem coragem pra pedir desculpas, abaixou a cabeça e foi embora, de volta ao escritório. A loura, diante de tão estranha reação, tentou chamá-lo, “Hei, fulano, que foi?…” mas ele não teve coragem de olhar para trás, e ela ficou com pena mas pensou “ah, foda-se, é só mais um fudido” e foi pra casa. Quando chegou ao escritório, seus colegas repararam que estava pálido, mas acharam de bem não comentar, o rapaz era meio tímido, deixa ele na dele. Uma lágrima chegou a sair de seu olho esquerdo na saída do serviço, no elevador. E reparou que o ascensorista não tinha alguns dentes. Na mesma noite se matou.

(Pra tirar o cheiro de mofo do sítio, resolvi postar aqui esse conto, de 99 do século passado, praticamente inédito.)

Eu sou pó moderno

Eu sou pó moderno.
Nunca sou a continuidade de ontem.
Durmo com a cabeça cheia de planos
e acordo com os pés no travesseiro.
E se finjo ir na direção contrária,
é porque à tarde já volto a querer ser fotógrafo no interior do Brasil.
De noite noto que o dia acabou,
pra mim
e apenas deito.
Mais uma volta no carrossel melancólico do campo de São Bento.
Eu sou pó moderno.
Com um vento brisalento,
pulverizo-me em várias direções,
em pequenos fragmentos de mini-desejos,
incompleto e instantâneo.
Sonhos substituídos por novos sonhos substituíveis.
De noite é reunir os cacos que ainda estão por perto,
arregimentar um pouco de fôlego
e soprar-me e confundir-me novamente
numa nuvem de breves movimentos,
pela manhã.
Eu sou pó moderno.
P.S.: Essa poesia não é minha, é do Caito Mainier, das antigas, inclusive, pedi a ele pra publicá-la aqui por que eu também sou pó moderno, e por que ele é um dos meus melhores amigos, e por mais uma série de razões sublimes que só uma obra épica que ainda será escrita poderá explicar um dia, quem sabe, e pra quem puder compreender. Que doce e foda tê-lo sempre ao meu lado. A poesia há de salvar a todos nós. Viva!

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