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O luar

No vale dos desesperados a vida canta cega como o luar. A insônia é uma cabra cega que arde na solidão silenciosa e te soterra. Tuas veias se entupiram de um gozo espesso e escuro como a mãe. Sem luar teu lugar fica mais estreito. A vida é uma cabra cega que canta ao luar. E urge. Com ardente ferocidade. Achata. Toda via é cega. Tua tremenda fome se soterra ao lugar. Você se estrangula ao lutar. Teu lugar. Cada vez mais estreita, a distância entre nós sussurra. Os olhos ardem; a boca seca; a virgindade explode numa miríade de fragmentos inomináveis. Toda vez que canto o luar adormece tua boca. A boceta ardente canta uma melodia infinita caramelizada em caos. Toda vez. Sedimentos.

Cancro de Rei

Congratulações serenas em nome da majestade apócrifa. Um califa de soro e Bagdá; um califa de ouro. Cada passo o dromedário pesa mais e mais, e meu sono espasmódico se perde em fios e membranas intocáveis como um pé descalço descarnado e exangue, perdido de morto, trovoado, cabisbaixo, sem pender pra nenhum lado. Sem perder o rumo, sem achar um caminho, o vento desfavorável do meu medo me atordoa. Ele canta frio tremores alados e armas de fogo; um canto assoviado, sussurado de orelha em orelha no pátio do colégio, um canto de si, de dó, de ré, de dado que não se rola, de medo andrômedo, de musgo incolor, de cheiro incontrolável, de fedor e pús terno pra passar no pão. Cada constelação treinada pra não cair em vão. A orelha de ontem. O som do divino. O casulo alado. A alma. O caminho: indecifrável. Um morto póstumo. Túmulo de anseios. Nada requer nada. O ranho liso da minha pica. O ranho que engasga. A poeira que entope as ventas e o vago deslizar de tudo que se encrespa no momento. O vento. Dissonante como uma formiga-cigarra, com o coro na mão, cigarro na outra, desafinando a máquina. Desafiando. Aquilo tudo mesmo. Sem martelo, sem prego, sem foice. Foda-se. Foi-se. Pegajoso. Uma costureira de auras, uma corda amanteigada, um baterista magnético, imprecisão adornada em retóricas. Lampejo. Prevejo. Ressucitamos. No casulo. Casulo. Bicho da seda e do ímã. Costurando a cigarra e a aura da formiga no Rei. O Rei apócrifo. Canalha. Espinha na bunda. Sem ar. Quanto ao perigo, quanto à Terra, quanto ao futuro. Todo mundo escorre no mata-cavalos. Perigo de porteira. O caminho é possesso, o mapa é lento, o combustível não tem alma. Vejo. Revejo. Desvejo. Meço. Contudo, muito mais é só um pouquinho, ainda, no caminho da gordura. Meço a minha fome e peço resignação. Não quero. O ruído do cachorro só traduz o seu estar. A vizinhança pode. O batuque é grande. Churrasquinhos sonoros, meia-luz, detrás da tela, detrás da câmera, detrás da máscara. Dinheiro é aquele número. Infame o tamanho. Melhor omitir. O sabor é fulgás, o desejo, pedra, o lampejo, veloz. Trovejando horizontes. Em cima da cama. Em cima da colcha. Uma mandioca. Cada vez maior. Até virar farinha. O ser é desalmado. Quando canta cria tez, quando esculpe sente merda. Um ciclo. Meu velocípede. A poética da majestade apócrifa. Do mesmo tamanho do cercadinho do Jardim de Infância. Pra quem tem. Melhor do olho. Amargo e excitante. Um gozão. Gruda os olhos numa conjuntivite clarividente. Na poética da revisão de auras, o que parece ser geralmente é. Casmurro. Murro na cara das defensas do castelinho imagético que protege o teu outeiro duma invasão bárbara. Destronando o apócrifo. O Rei tá pálido. Desde que nasceu. Não ofusca nada. Só mete merda. O Rei. Majestade do pó grifado. Mesmo pra quem não tem martelo. Mesmo pros outros. Pouca gente tem culhão de ler; angústia parar de se ouvir, angústia ficar se ouvindo em silêncio. Medo do tempo, medo da solidão. Reduz o sentimendo a um grito. Reduz. Reduz e mete. Goela abaixo. Como memédio. Reduz que mamãe falou. Em nome da safada. Só lê quem quer. Sereno. Como um prisioneiro sem grades. Sereno e apimentado. Cancro do canto.

todavia, desculpa de aleijado é muleta.

Calado

Pervertinho

Toda vez que se via, desmerecedor do merecimento. Encontrava nos seus próprios lapsos pedaços de desejos incompreendidos ou esquecidos de tão molinhos que ficavam antes de sair pro mundo. Toda hora. Todo desejo. Incandescente. Não tinha mesmo o hábito. Se tivesse, teria saído, exatamente nesse momento. Porque queria. Não tinha um ímã atado a bunda nem nada que o grudasse ou colasse ou puxasse pra baixo, mas ainda assim não conseguia. Tinha pernas muito curtas, mal lembrava da pedra de pedra que fora outro dia. Não queria mais lembrar. Construíra até um jeitinho pra si, pra sobreviver. Juntava tudo que trazia reações de amolecimento, de caminho, de cantinho. Fazia isso por experiência, pra sobrevivência. Tinha esse hábito. E assim encontrava balsas e portos seguros que deixavam-no boiar um pouco mais pelo mar seco da sua represa. Armadilha.

Os laços já tinham afrouxado todos. Escondera as poções, os antídotos, os unguentos numa mesma salinha. Partículas subatômicas e ares docinhos costurados numa colcha de comiseração. Vomitava nas escadas, noite após noite, como num altar. Ah, gracinha, dominância retrátil multiplicadora da fome e do desespero. Paulo era seu inimigo. Tinha asas nos pés e metralhadoras semi-automáticas debaixo da pele. Criara essa limitações protetoras. Defensas. Criara outras tantas coisas inomináveis que preferia manter ocultas. Como mortes e testamentos secretos. Tinha esse pendor. Ninguém deveria. Sua cabeça cuspia o mundo tal qual o via, os olhos pareciam muito espelhos. E sangrava por lá. Menor assim. Transara em todos, como se dizia. Até esgarçar os clichês da esquina, até esfolar a rima dos michês de bunda suja.

Qual não era seu espanto, entre dentes e línguas, desencontro. Toda hora parado. Um interminável engarrafamento emocional da coragem em cujo pedágio eram fuzilados todos aqueles que não traziam dinheiro trocado. Se não facilitar, dança. Melhor se comportar. Se conter. Pra não vazar todo esse medo de inadequação. Funcionava assim como uma estante, reta, quadrada, dura, inerte. Escorria sempre pela bainha das calças, tentando não molhar o assoalho. Nas frestinhas, acontecia uma mistura, poeira com sonho, poeira com desilusão, poeira com tudo o que lhe escorria. Não suportava mais algumas ponderações de seus arredores. Preferiria matar, mais um vez. Havia matado uma menina quando criança. Havia matado um homem quando adulto. Tudo isso antes de nascer. A vida é ordinária. A morte é extraordinária. Pendure de cabeça pra baixo todos os críticos de sua acidez. Morceguinhos avinagrados. Se era corrosivo, não permitia bases. Seu Nilo era menos extenso que o otimismo barato que encontrara certa vez em livros e litros de auto-ajuda, boquinha pestilenta beeeeeem longa, mas a profundida, ahhh!, a profundida, essa poucos viam. A água era turva, chegava a ficar barato quando algum filhote se afogava, quase insuportável de tão barato.

Mas como pode ser contra tudo?

Esfolava o pau. Até doer. Não exatamente de propósito, mas também não seria impossível evitá-lo se estivesse um pouco mais consistente das idéias, por assim dizer. É um merda ser inconsistente nas idéias, ainda mais depois de ver tanta gente com tanta idéia simples prosperar por consistir nelas. Insistir. Se eu não tiver, ninguém mais vai ter. Isso mantinha a cotação do nada muito alta. Um perigo.

Vamos dar com os burros n’água? Chegando lá, unicórnios.

Da oferta e da procura

uma vez falei pra ele:

mas e o drama?

ele respondeu:

meus dramas me são muito caros,

e eu pensei com meus botões:

talvez fosse melhor barateá-los.

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