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Melodia de Caça

precipicio

Níveis incandescentes de stress. Melodia ancestral de caça. Caça ao abrigo. Melodia de fim dos tempos pra quem pensou um dia que tudo podia ser eterno. Melodia de eterno recomeço, pra quem carrega nas costas níveis de stress incandescentes, mas não perde o hábito de rir, ou de gargalhar, o quanto melhor. Pra quem não perde a capacidade de aprender, de lutar, de gozar, de fruir. De fuder. E principalmente, pra quem não perde a capacidade de sentir dor, a dor do stress, a dor de estar vivo. De rir da própria desgraça e recomeçar sempre, mesmo depois da morte. Níveis melódicos incandescentes pra quem recomeça a destruir o medo, mesmo depois de ter se cagado todo nas calças. Mesmo o mais simples dos umbigos trás em si uma melodia ancestral, pra ser ouvida de ladinho, com o rosto colado ao chão. Melodia de vertigem pra quem sabe entoar um cântigo em meio ao maior dos tormentos. Níveis de emoções inéditas e inimagináveis, pra quem trás nas costas as marcas de níveis. Stress incomensurável de caça ao abrigo pra fugir de melodias tolas que minam as mínimas certeza intermináveis: no riso, no fundo, no chão. Melodia de stress, mas ainda sim cantando. Quem é adepto de precipício acaba aprendendo a voar. Melodia emocional e melancolia de caça.

Testemunhei outro dia uma cena espetacular, uma dessas cenas maravilhosas do nosso cotidiano absurdo, uma dessas imagens que trazem em si uma resposta dos tempos. É incrível. Não tinha uma máquina digital à mão, mas foi tudo tão rápido que, mesmo que a tivesse, não flagraria a tal cena. Todavia, graças a um bom deus, tinha meus olhos, e minha memória, e agora posso contar o que vi, e o que senti. E a reação hipotética que não tive. Estava dirigindo, infelizmente, porque cada vez me parece mais caro dirigir. Ia sozinho pelas avenidas do bairro-eldorado aqui do Rio, a fajuta pseudo-Miami City que criamos, longe do centro, longe do velho, do sujo, do decadente. (E o irônico, como veremos, é que todos esses atributos do arcaísmo vigente já estão incutidos lá, não há antídoto, só fuga donde o rabo vai atrás…)

À minha frente vinha um carro com o adesivo evangélico clássico “Propriedade exclusiva de Jesus”, ou talvez “Jesus é Fiel”, ou algo que o valha, disso não lembro exatamente. No canto esquerdo da pista, que não tinha acostamento, ou seja, na sarjeta, de pé, uns 3 moleques de rua brincavam, um deles se insinuando pra cima dos carros, como se fosse se atirar neles, ameaçando interromper o fluxo, a máquina do vai e vem. Isso numa avenida onde essas maravilhosas e seguras cápsulas de metal são permitidas trafegar a 80 quilômetros por hora. Eis por fim a tal cena: o crente do carro com o adesivo de Jesus coloca a mão pra fora, faz aquela famosa forma de revólver ou pistola, tão comum às crianças, simulando uma arma com a mão, e dá alguns tiros virtuais nos moleques de rua. O gesto de meter bala, sentar o dedo. Tão simples quanto isso, uma fração de segundo, como quem diz “vocês merecem morrer, escória. Se eu pudesse, matava vocês”. E a maravilhosa reação mental que eu tive, mas não executei – pra não comprometer a integridade física, talvez a razão pela qual não reagimos a nada, e não nos comprometamos com merda alguma, mantendo tudo como está… -, foi a de emparelhar com o babaca, botar a cabeça pra fora e gritar “Qual foi, meu irmão, Jesus tá querendo matar criancinha agora?”

Vá lá que não eram criancinhas, mas moleques de uns 15 anos. Muito mais ameaçador pra um evangélico fascista, mas ainda sim me pareciam mais crianças que bandidos. Eu vejo dessa forma, acho que eles precisam de algum tipo de atenção que ninguém está disposto a dar, e não de bala. No entanto, parece que vem um na ausência do outro. O detestável cristão seguiu seu rumo, com sua detestável esposa, pregando a morte pelas ruas, e os moleques ali permaneceram, brincando de morte, com todos os bons motivos pra continuarem na rua, inclusive pelo ódio dos irmãos.

Um acerto de contas, sim. Um acerto velado e tácito, destruidor de sonhos e esperanças. Incongruências juvenis regem teus medos mais doces, graças a um bom deus que rebola gostoso a bundinha. Eles vivem cagando regras em uma ordenação de obrigações violentas que divorciam o ser do mundo e te mantêm em suspenso. Ocidentais até a última raiz do cabelo, até que o último modelo perfeito do mundo das idéias venha esmagar minha sensação bêbada e falsa. Entre a verdade e a mentira tem um mundo de coisas que não se vê – se fôssemos cegos, cheiraríamos muito mais. Camadas omitidas, ignoradas, desprezadas, desdenhadas. Tudo é tão delicado e intenso, mas quem distingue? Cada macaco no seu galho, ensimesmado como a chuva que cai lá fora e omite todo sol daqui de dentro do meu peito, uma coisa que suprime a outra e mais outra, um constante esmigalhamento de devenires e todo um desdém, tanto pelo trabalho quanto pelo pensamento. Se eu fosse outro seria mais próximo de mim, não sendo eu. Todo um mundo de obrigações recalcadas não nos permitem o assassinato purulento que certas hordas demandam. Todo estupro racha a ternura, independente de traição. Tudo se exclui num mundo impossível das possibilidades de amanhã de manhã, cheios de culpas num acerto de contas verticais de todas as roupas sujas não lavadas, uns contra os outros, todos são inimigos, tudo baseado na aparência. Lucros abomináveis e incessantes na direção da vitória, tudo conquista individual que reprime a singularidade do indivíduo. Lucros abominantes, e que não moram em nenhum bolso conhecido meu. Toneladas de contradições incrustadas de intenções cavilosas, tudo pra você acreditar no tempo, tudo pra que você vá pro céu mais tarde, tenha uma recompensa, um desejo saciado, um status, e grana, muita grana. Tenho a necessidade incomensurável de viver contigo numa ilha que amanheça a cada dia perto de um porto diferente. Sem grilo. Sua linda buceta rutilante me multiplica, tua opulência ímpar me deixa tímido e inebriado, depende de onde, depende de como. O lance é seguir molhado, mesmo seco, olhar pro lado e ignorar o pouco tempo que nos sobra. Desvio irremediável. Se você acredita que nasceu torto, não cresça reto. Não grite e não morra. A poesia é inútil quando você não come ela. Dentro de mim. Virulência do pênis e cagadela de pombo como adubo. Sou contra os sacerdotes do controle, sou contra essas indóceis máquinas da onisciência, porque elas mentem. Sinta-se, uma coisa de cada vez.

In Focus

party_intimaFui a uma festa VIP inovadora. Era realizada num ambiente controlado, com algum tipo de tecnologia de última geração, quando você entrava isso ficava patente. Eu não sou muito chegado a esses eventos, muito menos a festa VIP, fui porque ganhei o convite super VIP de uma pessoa muito querida, e confesso que fiquei curioso. Fui pra ser VIP, ou melhor, super VIP, distinção que pra mim soava meio redundante, mas vá lá. Num lugar secreto, especial, exclusivo, essas babaquices todas. Tudo divulgado apenas algumas horas antes, coisa do creme do creme, da nata. Chegando lá, reparei que não havia curralzinho, com as prometidas subcastas, essas coisas. Fiquei meio cabreiro, modernoso demais o lance, todo mundo então era super VIP…

Mas logo reparei que a maior parte das pessoas estava fora de foco (!), e outras, em número bem menor, não. Mas como? Então era essa a última tecnologia que ele tinham implantado na entrada da bagaça! Um lance hiper controlado, você ganhava uma pulseira na entrada, todas da mesma cor, mas de fato havia uma que deixava você em foco, e outra que deixava você fora de foco! Quem era super VIP mesmo, muito mais VIP que os outros, ficava em foco, e quem não era tão VIP assim, ficava fora de foco! Pasmem, a divisão do futuro…

Fiquei meio catatônico, e demorei a ligar os pontos. Como falei, eu tinha ido com o convite VIP super VIP, a pessoa querida que tinha me convidado fez questão de frisar, e disse que eu podia ir sem medo, que eu não ia me incomodar. Ia ter conforto, e sem ter a sensação de estar isolado com um bando de babacas num curralzinho. Enigmas a parte, fui reparando que os super VIPs se distinguiam de maneira discreta, porque estavam todos misturados, e eram todos convidados. O que eu entendi depois de um tempo foi que, pra quem não era super VIP, todo mundo tava em foco, e pra quem era, quem não era tava fora de foco, e quem era tava em foco. Daí que quem não era super VIP não tinha nem consciência dessa divisão interna! E quem era, vivia uma cumplicidade silenciosa com seus pares, como uma seita secreta, superior, discretamente superior, só pra quem vê, só pra quem sabe…

Uma coisa de maluco, se eu contar ninguém acredita. Achei tão sórdido e perverso que enchi a lata e fiquei me deliciando com o delírio antropológico. Quem não era super VIP tava feliz que nem pinto no lixo, de estar ali, naquele lance tão exclusivo, tão VIP, tão importante, e ficava curtindo, esbanjando, ostentando alegria. E quem era super VIP tinha a pachorra de fingir que nada tava acontecendo, que tava todo mundo junto, naquela panelinha democrática, mas via (!) quem era da casta superior, e quem não era. Ficavam fora de foco, os pé de chulé! E não tinham nem o direito de saber disso! Ahahahahah!

E acontecia uns lances engraçados, tinham uns globais, uns televisivos, que não eram super VIPs, e uns anônimos que eram, então rolavam situações de um não super VIP despejar empáfia num super VIP, porque um era famoso e o outro não, no entanto eu via isso vendo um cara exibido, expansivo, porém fora de foco, tirando uma onda, na pista, com a cara de um ex-nerd, filho de banqueiro ou algo que o valha, em foco, completamente em foco, hiper definido, inabalável, como se sua existência social estivesse somente ligada à nitidez entre seus semelhantes, e na distinção da plebe! Era a coisa mais engracada do mundo: o Bam-Bam lá, todo estúpido, embotado em sua grosseria, sem detalhes, esculachando à distância um almofadinha contido e elegante, na verdade infinitamente mais escroto em sua autoafirmação silenciosa do que o novo rico que ele desprezava.

Diferença gritante: um quer esculachar, o outro esnoba, ignora. Papo entre burguês e aristocrata; um usa como se tudo estivesse pra acabar, o outro usa como quem sempre teve. Um é novo rico, o outro tem notas mofadas nos bolsos. Se for falar das putas ou das peruas, então, aí é que fica grotesco mesmo. As moscas em volta do bar, fora de foco, arrodeando as carnes podres, definidinhas como quem controla o mundo. Acredite quem puder, dias desses você vai ter a sorte de ir a uma dessas, como eu fui, e ver como é. Mas cuidado: você poder ir sem ser na condição de super VIP, aí você tá lascado, porque nunca vai saber…

Perdi a Fonte

 

Banksy?

Banksy?

Eminente

Eu sou a eminência de mim mesmo. Com vertigem emocional.

Vale o que acontece

É como num almoço de família: a expectativa é grande demais. O desejo de avaliar se mamãe mandou bem impede o fluxo natural dos acontecimentos. O desejo de mamãe ser (bem) avaliada, antes de mais nada. De fisgar todo mundo pela boca. Como peixes. Bendita invenção: entre a alavanca e a roda, eu fico é com o gancho. É como se a humanidade toda (um perigo pensar / evocar essa imagem, a humanidade toda) estivesse presa a esse tipo de dogma – avaliar se o caminho tá certo, se estamos fadados a destruição ou não. Avaliar se tá tudo nos eixos, se tá tudo certinho. Se teremos alguma chance, se fisgamos algo.

(Isso quase com amnésia, isso sem olhar envolta, sem lembrar o mínimo que seja do que vem ocorrendo entre os homens, esse sistema legal ao qual a gente chegou. A História dos vencedores, as guerras, santas ou políticas, os governos, os impostos, as indústrias, a publicidade te convencendo a precisar de algo inútil, a miséria galopante em 90% da superfície, as águas podres e o lixo, os peixinhos com câncer, os ursinhos morrendo nos cantos do planeta… Esse jeitinho bacana de viver, onde não damos bom-dia pros vizinhos, onde precisamos de uma tonelada de metal pra ir daqui até lá, queimando combustível fóssil, onde o legal é ter o que ninguém tem, pra usufruir sozinho. Onde estamos submissos a mercados globais controlados por fulaninhos que ninguém conhece, onde as decisões são tomadas às escondidas. Onde existe uma democracia que nos impõe uma porrada de regras e ordens o tempo inteiro.)

Ninguém se liga no percurso. Ninguém se liga no ponto onde se está; estamos sempre tendo que chegar logo a algum lugar, com a cabeça no fim. É uma época em que tudo é excessivamente medido, contado, mensurado. Ninguém tá aqui sem medir de onde tá vindo ou pra onde tá indo. Tá tudo separado: o prazer do sabor. Tá tudo se divorciando. Ninguém mais caminha de mão dada sem se sentir comprometido. Se você domina a língua? Amigo, você traça uma linha estreita e firme entre o que você sente e o que você vive, e isso sai de você como texto. Isso é o que importa. Dominar a língua é ofício de quem quer subjugar alguma coisa. Provavelmente pra medi-la. Me pego nesse excesso de totalitarismos, de hermetismos e de outros ismos. Tenho abaixo de mim 6 mil quilômetros de dólares numa conta numerada na Suíça. Só não achei ainda, mas vivo acumulando tesouros depositados em local muito seguro. Como num almoço de família em que ninguém consegue sentir o gosto real do momento. Enquanto eu não cagar um negócio lindo de dentro de mim não vou ficar satisfeito. E tem que ter alguém pra medir. Estamos fadados a destruição e temos uma mínima chance de nos salvarmos – fugindo. Desse rumo. Hoje sempre é depois de ontem e antes de amanhã, nunca hoje. Propriamente dito. Sigo fugindo, sigo voltando pra casa. É tudo um grande jogo de palavras, amigo. A arte incomoda os satisfeitos e satisfaz os incomodados. Como você mesmo me falou ontem. E a gente preocupado em decidir se estávamos fadados à salvação ou à ruína. Sem destino certo, vale o que acontece.

Eu não conseguia escrever título sem compromisso, com leveza. Porque me ensinaram no colégio que todas as palavras de um título deveriam começar com letra maiúscula, e por isso ficava sempre ruim. Outro dia li um título de outrem e vupt! Fiat lux. Me liguei que só a primeira letra da primeira palavra era maiúscula, e o resto ia de minúscula mesmo. Como uma frase. E aí, enfim, eu desaprendi o que me fora ensinado no colégio. Levou tempo pra caralho, mas eu consegui. Agora escrevo título como quem escreve, e não com aquele rotundo peso de quem coloca um rótulo importante pra compreensão do todo, com forma distinta do resto. Desaprender é foda. Bom demais, porque é difícil, e porque nos ensinam tanta merda.

Todos esses fantásticos atributos.

Todos esse fantásticos e maravilhosos atributos.

Todos esses fantásticos e maravilhosos atributos a que ninguém se furta.

Todos esse fantásticos e maravilhosos troféus aos quais ninguém se furta.

Toda essa inefável culpa.

Tudo.

O que não se quer falar.

O que se culpa.

Todo esse maravilhoso ser.

Todo esse ser humano.

Todo ser.

Tudo culpa.

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