Congratulações serenas em nome da majestade apócrifa. Um califa de soro e Bagdá; um califa de ouro. Cada passo o dromedário pesa mais e mais, e meu sono espasmódico se perde em fios e membranas intocáveis como um pé descalço descarnado e exangue, perdido de morto, trovoado, cabisbaixo, sem pender pra nenhum lado. Sem perder o rumo, sem achar um caminho, o vento desfavorável do meu medo me atordoa. Ele canta frio tremores alados e armas de fogo; um canto assoviado, sussurado de orelha em orelha no pátio do colégio, um canto de si, de dó, de ré, de dado que não se rola, de medo andrômedo, de musgo incolor, de cheiro incontrolável, de fedor e pús terno pra passar no pão. Cada constelação treinada pra não cair em vão. A orelha de ontem. O som do divino. O casulo alado. A alma. O caminho: indecifrável. Um morto póstumo. Túmulo de anseios. Nada requer nada. O ranho liso da minha pica. O ranho que engasga. A poeira que entope as ventas e o vago deslizar de tudo que se encrespa no momento. O vento. Dissonante como uma formiga-cigarra, com o coro na mão, cigarro na outra, desafinando a máquina. Desafiando. Aquilo tudo mesmo. Sem martelo, sem prego, sem foice. Foda-se. Foi-se. Pegajoso. Uma costureira de auras, uma corda amanteigada, um baterista magnético, imprecisão adornada em retóricas. Lampejo. Prevejo. Ressucitamos. No casulo. Casulo. Bicho da seda e do ímã. Costurando a cigarra e a aura da formiga no Rei. O Rei apócrifo. Canalha. Espinha na bunda. Sem ar. Quanto ao perigo, quanto à Terra, quanto ao futuro. Todo mundo escorre no mata-cavalos. Perigo de porteira. O caminho é possesso, o mapa é lento, o combustível não tem alma. Vejo. Revejo. Desvejo. Meço. Contudo, muito mais é só um pouquinho, ainda, no caminho da gordura. Meço a minha fome e peço resignação. Não quero. O ruído do cachorro só traduz o seu estar. A vizinhança pode. O batuque é grande. Churrasquinhos sonoros, meia-luz, detrás da tela, detrás da câmera, detrás da máscara. Dinheiro é aquele número. Infame o tamanho. Melhor omitir. O sabor é fulgás, o desejo, pedra, o lampejo, veloz. Trovejando horizontes. Em cima da cama. Em cima da colcha. Uma mandioca. Cada vez maior. Até virar farinha. O ser é desalmado. Quando canta cria tez, quando esculpe sente merda. Um ciclo. Meu velocípede. A poética da majestade apócrifa. Do mesmo tamanho do cercadinho do Jardim de Infância. Pra quem tem. Melhor do olho. Amargo e excitante. Um gozão. Gruda os olhos numa conjuntivite clarividente. Na poética da revisão de auras, o que parece ser geralmente é. Casmurro. Murro na cara das defensas do castelinho imagético que protege o teu outeiro duma invasão bárbara. Destronando o apócrifo. O Rei tá pálido. Desde que nasceu. Não ofusca nada. Só mete merda. O Rei. Majestade do pó grifado. Mesmo pra quem não tem martelo. Mesmo pros outros. Pouca gente tem culhão de ler; angústia parar de se ouvir, angústia ficar se ouvindo em silêncio. Medo do tempo, medo da solidão. Reduz o sentimendo a um grito. Reduz. Reduz e mete. Goela abaixo. Como memédio. Reduz que mamãe falou. Em nome da safada. Só lê quem quer. Sereno. Como um prisioneiro sem grades. Sereno e apimentado. Cancro do canto.
Publicado em imagens | 1 Comentário »
Toda vez que se via, desmerecedor do merecimento. Encontrava nos seus próprios lapsos pedaços de desejos incompreendidos ou esquecidos de tão molinhos que ficavam antes de sair pro mundo. Toda hora. Todo desejo. Incandescente. Não tinha mesmo o hábito. Se tivesse, teria saído, exatamente nesse momento. Porque queria. Não tinha um ímã atado a bunda nem nada que o grudasse ou colasse ou puxasse pra baixo, mas ainda assim não conseguia. Tinha pernas muito curtas, mal lembrava da pedra de pedra que fora outro dia. Não queria mais lembrar. Construíra até um jeitinho pra si, pra sobreviver. Juntava tudo que trazia reações de amolecimento, de caminho, de cantinho. Fazia isso por experiência, pra sobrevivência. Tinha esse hábito. E assim encontrava balsas e portos seguros que deixavam-no boiar um pouco mais pelo mar seco da sua represa. Armadilha.
Os laços já tinham afrouxado todos. Escondera as poções, os antídotos, os unguentos numa mesma salinha. Partículas subatômicas e ares docinhos costurados numa colcha de comiseração. Vomitava nas escadas, noite após noite, como num altar. Ah, gracinha, dominância retrátil multiplicadora da fome e do desespero. Paulo era seu inimigo. Tinha asas nos pés e metralhadoras semi-automáticas debaixo da pele. Criara essa limitações protetoras. Defensas. Criara outras tantas coisas inomináveis que preferia manter ocultas. Como mortes e testamentos secretos. Tinha esse pendor. Ninguém deveria. Sua cabeça cuspia o mundo tal qual o via, os olhos pareciam muito espelhos. E sangrava por lá. Menor assim. Transara em todos, como se dizia. Até esgarçar os clichês da esquina, até esfolar a rima dos michês de bunda suja.
Qual não era seu espanto, entre dentes e línguas, desencontro. Toda hora parado. Um interminável engarrafamento emocional da coragem em cujo pedágio eram fuzilados todos aqueles que não traziam dinheiro trocado. Se não facilitar, dança. Melhor se comportar. Se conter. Pra não vazar todo esse medo de inadequação. Funcionava assim como uma estante, reta, quadrada, dura, inerte. Escorria sempre pela bainha das calças, tentando não molhar o assoalho. Nas frestinhas, acontecia uma mistura, poeira com sonho, poeira com desilusão, poeira com tudo o que lhe escorria. Não suportava mais algumas ponderações de seus arredores. Preferiria matar, mais um vez. Havia matado uma menina quando criança. Havia matado um homem quando adulto. Tudo isso antes de nascer. A vida é ordinária. A morte é extraordinária. Pendure de cabeça pra baixo todos os críticos de sua acidez. Morceguinhos avinagrados. Se era corrosivo, não permitia bases. Seu Nilo era menos extenso que o otimismo barato que encontrara certa vez em livros e litros de auto-ajuda, boquinha pestilenta beeeeeem longa, mas a profundida, ahhh!, a profundida, essa poucos viam. A água era turva, chegava a ficar barato quando algum filhote se afogava, quase insuportável de tão barato.
Mas como pode ser contra tudo?
Esfolava o pau. Até doer. Não exatamente de propósito, mas também não seria impossível evitá-lo se estivesse um pouco mais consistente das idéias, por assim dizer. É um merda ser inconsistente nas idéias, ainda mais depois de ver tanta gente com tanta idéia simples prosperar por consistir nelas. Insistir. Se eu não tiver, ninguém mais vai ter. Isso mantinha a cotação do nada muito alta. Um perigo.
Vamos dar com os burros n’água? Chegando lá, unicórnios.
Publicado em Prosa, Prosa-poética | 1 Comentário »
uma vez falei pra ele:
mas e o drama?
ele respondeu:
meus dramas me são muito caros,
e eu pensei com meus botões:
talvez fosse melhor barateá-los.
Publicado em Poesia | 1 Comentário »
Publicado em Uncategorized | 2 Comentários »
Por mais que corresse sempre se atrasava, atributo esse mais ou menos parecido com mais ou menos todo mundo, hoje em dia, como se, ao dizer isso, pudesse libertar dum dogma denominador comum tudo que não fosse ordinário, não fosse claro, ou fosse hermético, por mais que corresse. O que é a pontualidade? Afinal, marcar um ponto ou seguir um ponteiro não atestam nada, pensava, olhando sem parar o lento desenrolar que girava em seu pulso. A rua, vazia, impelia-o a um andar mudo, um entardecer, uma humidificação inebriante dos sentidos, e isso desgarrava-o do tempo, estilhaçava os ponteiros, as portas, os cigarros e a simplicidade que se antevê no sofrimento alheio. Achava no bolso sempre aquela humildade tão necessária aos impulsos criadores, que se afirmavam no vazio, no sentimento mútuo de uma vaidade tola, sempre ela, agarrando-o pelos calcanhares, tentando fazer e ser o caudaloso, o tempestuoso, o fluxo, a chuva e o inconveniente.
E, por mais que isso o fizesse pensar que estava sempre atrasado, não importava o quanto se adiantasse, o pensamento não o libertava da eterna vigília dos ponteiros. Sabia como era fácil e perigosa sua incomensurável capacidade de exprimir o inexprimível, lacrado numa caixa de mudança, posta num container, a mil anos luz do seu destino, não importa qual fosse, mesmo que fosse, inclusive, seu destino final, morar pra sempre num container, como uma célula, estacionado num canto esquecido de um porto desativado, quiçá em ruínas. Vasta vasta vasta cabeleira de idéias, o atordoavam de modo sufocante, uma fuga, tomara que sim, era uma chance de chegar na hora, uma mísera vez que fosse. Pôde passar mais de seis horas parado, ali, na eterna especulação do que seria se fosse, um looping másculo e terrível como a sensatez idiota de um funcionário público, um câncer sufocante que iria aterrá-lo como um lodo escuro, grosso e interminável, e pôde também, no ato, se perguntar por que o infinito cantava tão fácil nessa catatonia de imagens que iam seguindo, e pensou nunca ser o que seria exatamente, se não fosse nada mais que isso, um especulador de sonhos e idéias adestradas pra serem qualquer coisa menos uma resposta, a merda da diáletica de quem é o dono e o cachorro, um sempre querendo passear porque o outro PRECISA disso, e você faz isso pelo outro, nunca por si, sendo dono ou cachorro, não importa.
Era duro pensar na sua imobilidade. Podia ir andando, da praça, pela calçada, atravessar a rua, pé ante pé, adentrar um bar, um café, um boteco, um restô, o que fosse, que ainda sim estaria especulando. Um operador de especulações mentais vazias, tão pertinentes, muito próximas a um enxame de marinbondos agressivos pronto pra picar tudo à sua frente até extinguirem a raça.
Publicado em Prosa, Prosa-poética | 1 Comentário »
Fico muito feliz e honrado e orgulhoso e tudo mais em saber como VOCÊ tem se saído bem na vidinha, sabe? A vidinha é fogo, rapaz, você sabe bem, ela vive, muitas vezes, eu diria, pra fuder a gente, não assim de propósito por que isso não existe, né, mas pra dar aquela rapinada na gente. Eu queria que não fosse assim, às vezes. Talvez fosse mais fácil. Talvez facilitasse inclusive pra escrever, expressar, falar, enfim, sem que precise ser um vômito quente e amargo jorrando de algum lugar, mas se também não tiver jeito, não tem jeito e é isso aí. Talvez nem precise mais de nenhum tipo de desafio, desafio desses que você encara por que não tem pra onde fugir, olha em volta, coça o cavanhaque, disfarça, e ele continua lá e você diz eu vou, vou pra cima por que agora não dá mais pra disfarçar, quer dizer, ele vai te nutrindo, e tu toreando ele, levando sempre na ponta da faca, quase admirando o stress que te ocorre, quase tomando ele como um sumo de auto ajuda, quase assumindo que sem stress você não vive, né, por que já deixou de ser criança e não é mudo etc e tal. Mas tamanha valentia muitas vezes é bobagem, bobagem por que muita gente acredita que não tem por que lutar, tá toda satisfeitinha com tudo o que está aí, e vê essas dores esses sofrimentos e essas palhaçadas todas que se sente como um lance de criança mimada. Criança mimada fica inventando coisas pra reclamar, pra ser insatisfeita, pra deixar o mundo miserável e infeliz, por que não fica tranquilo com o maravilhoso acesso que temos hoje em dia a tudo, a democracia, ao crédito, ao dinheiro, a tecnologia, a todas as novidades, e principalmente, o que muitas vezes se esquece de mencionar, acesso a esse cabedal maravilhoso de sentimentos expressos nas marcas que a gente consome. Pô!, tá tudo certo, é só escolher na prateleira a máscara que você quer vestir hoje, uma identidade, uma alma, consome, vai, consome essa porra dessa alma que te permite ficar satisfeito com o teu próprio ego e ser esse ser humano equilibrado que acha que quem reclama, reclama a toa. Não deveria reclamar, reclama por capricho, criança mimada. Além do mais, tudo já é tão imperfeito, a velhice e essas merdas todas, e o planeta anda acabando tanto que porra, fala sério, o que nos resta é viver, né?, e viver sem reclamar, palhacinho, por que a vida é boa e, pô, pensa bem, todo mundo fode de vez em quando, isso deve bastar, né não?
Publicado em Prosa-poética | 1 Comentário »
Da interminável bola de neve do déficit afetivo – que empurramos pra frente, desnecessariamente, visto que ela segue ladeira abaixo, e não pára de crescer e acelerar. Ela ainda vai esmigalhar a todos, um dia. E nesse dia não teremos mais por que negar o óbvio: somos todos sem um pedaço de nós mesmos, nos arrogando da falta de humildade, autossufocação interminável, asfixia. Sem um pedacinho da natação de útero, pelo óbvio; e do inefável, pelo complexo. Falta cuja expressão nos compele ao outro, me perdoe o rebusco. Fragmentos de solidão, fragmentos indecentes e arcaicos de tudo que nos falta, de tudo que nos fala, bendito ato falho.
.
Domestiquei gatos e adestrei remorsos infames. Esquadrinhei epopéias inúteis na tentativa de coibir suicídio. Escrevi confuso milhares de linhas dignas de serem jogadas no lixo, não fossem tão importantes pro umbigo, importantes pra(o) caralho. Vomitei no espelho como quem dialoga com o inferno em busca duma imagem. Diagnostiquei a doença do ser na esperança do novo. Podia, a partir de então, encontrar o que quisesse, conquanto fosse inóspito. Me equipei com aparelhos estranhos em busca do sonho perdido; um safari dos mais idiotas em direção ao centro do nada. Na enorme presunção humana de ter alguma importância num universo infinito, no qual ignoramos todas as maravilhosas partículas invisíveis, bati uma punheta frouxa, no meio do sono, no meio da insônia, no meio da ausência das minhas mais estranhas visões. Parto sem rumo praquele porto desprovido de atracadouro, logo eu, sem ânsia de âncora, aquele porto que tu conhece bem, senão. Sempre desprezei o todo, por medo do seu tamanho.
Publicado em Prosa, Prosa-poética | 4 Comentários »




